domingo, 25 de setembro de 2016

O Carro (ou Carta VII)

Brilha brilha farolzinho
Mostra o que vem à frente
Acende o vermelho para o que está atrás
Passe a lombada,
Desvie do buraco,
Vamos em frente meu amor.



***

Construíram uma estátua em homenagem aos dois. Estavam com mãos dadas como se fossem girar, aos pés dois gatos: um preto e branco e outro amarelo e branco. Mas olhando dali eram cinzas, os quatro. Cores que fazem toda diferença, ainda mais quando você prefere o mundo bem mais colorido, sem tons pastéis e essas cores meio apagadas. Tons vivos, de vermelho sangue, azul céu (sem nuvens), amarelo ouro, verde grama após a chuva (sabe quando sai o sol logo após uma pancada feia de chuva? Sabe a grama? Essa cor).

Todos os dias a população passava por ali, não olhavam os pombos a pousar e sujar a estátua. Não viam as cores que ela sempre teve, não percebiam as cores do amor dos dois.

Não sabiam da música que um dia poderiam gostar, não sabiam da comida predileta que poderiam fazer um para o outro, não sabiam do amor que poderiam ter com os gatos, não sabiam de nenhuma penteadeira, não sabiam de nada. Talvez nem se importassem. Não tem como você se importar com aquilo que você não conhece e eles... bem... aquelas pessoas nem se importavam em conhecer.

Mas não fazia tanta diferença assim, saberem ou não saberem.

Exceto talvez nos dias que aquela pessoa aparecia na praça segurando um buquê de rosas vermelhas e as colocava sob o pé da estátua. Era meio estranho e todos olhavam enquanto caminhavam rapidamente para não perderem tempo, sem saber exatamente, que quanto mais rápido caminhavam e pelo motivo que caminhavam, mais tempo perdiam. Mas como dizem, tempo é dinheiro. E se envolvem dinheiro no meio... o resto você já sabe.

Mas um dia a estátua demonstrou sinais de que já não aguentaria ficar ali por muito tempo. Já haviam roubado o gato branco e amarelo (me desculpe o deslize, por favor leia as últimas duas cores como sendo: cinza), a cabeça de um deles tinha despencado em algum momento (e as pessoas apressadas com seus inadiáveis compromissos não saberiam dizer em qual momento foi) e a outra cabeça estava tão deformada, que já nem poderia refletir a beleza que teve quando era mais... qual a palavra para uma estátua jovem? Nova?

E o homem que ali depositava rosas também deixou de aparecer. Estaria tão preocupado com seus afazeres que não retornava mais ao local? Talvez. Não se tem muita certeza quando ninguém percebe nada, ainda mais aquelas pessoas tão apressadas e tão cercadas de problemas a resolver. O Pequeno Príncipe teria questionado por que elas estavam tão apressadas que não olhavam e não cuidavam de uma estátua com uma representação tão bonita.

Mas ele nem ele e nem a atenção das pessoas estava ali.

***

Fechou o livro sem gostar muito daquele final. Preferia histórias felizes, não histórias nas quais as coisas nem ao menos acontecem, era expectativa demais para se terminar com duas estátuas. O que o autor estava querendo com isso? Que coisa mais chata, desnecessária.

Foi colocar o livro no criado mudo ao lado da cama e sem querer o deixou cair. Quicou no chão e caiu com as últimas páginas abertas e escrito em letras grandes, estava ali “Epílogo”. Pegou o livro novamente e foi direto para as três últimas páginas e percebeu que o livro não se encerrava como parecia. Quer dizer, se encerrava ali aquela história. Ficou contente em saber que teria mais, ainda que uma história diferente julgando pela forma como o epílogo estava escrito, teve esperanças que haveria um final menos xoxo. Correria na livraria pela manhã e tentaria encontrar a continuação, sorriu com a esperança de se ter uma nova e mais empolgante história, ou pelo menos com o mesmo ritmo que o livro que acabou de ler, mas com um final digno de filmes hollywoodianos. Não estátuas paradas no tempo. O que o autor tinha na cabeça?

Pela manhã resolveu esperar no café do outro lado da rua onde estava a livraria. Deixou que abrissem enquanto bebericava a xícara e observou uma garota de cabelo castanhos escuros e roupas de ginástica olhando as vitrines da loja, obviamente em busca de algo que quisesse ler. Ou dar de presente a alguém. Será que tinha namorado? Decidiu pagar a conta e quando saiu do café ela já não estava mais à vista.

Ao entrar na livraria foi direto para o atendente e perguntou sobre o livro que era continuação do anterior e em um lapso, se esqueceu do nome dos dois livros – do velho e do novo. Enquanto abria sua bolsa estilo carteiro em busca do livro antigo, a garota surgiu do meio das estantes agradecendo a outro atendente e com o livro que ele desejava nas mãos, foi para o caixa.

- Aquele livro, estou procurando por ele.

- Ah sim, tivemos uma boa venda ... é o último exemplar. Há previsão de chegada de mais exemplares em duas semanas.

Sem pensar muito e decidido a contornar a situação, o rapaz foi até a moça que estava quase na boca do caixa.

- Quanto você quer no livro?

- Oi?

- Quanto você quer? Eu pago. Se quiser o dobro do valor eu te dou.

- Não está à venda. – Um sorriso sem graça.

- Realmente quero muito esse livro... – Fez cara de cachorro que cai da mudança. Ela riu e achou ele bem esquisito. Esquisito demais, afinal por que não procurava em outra livraria? Mas aquilo era bem diferente, uma situação única. Talvez se conhecesse ele melhor teria ótimas histórias para contar aos amigos. O cara que queria a todo custo um livro. Que viagem.

- Paga metade, eu levo e leio. Combinamos por mensagens um café ou algo do tipo e eu te entrego e te conto o final. Prometo ler em três dias.

- Vai me contar o final? – Disse meio confuso.

- Claro que não – Riu da inocência dele – Estou brincando!

- Pagar metade, pegar seu número e marcar um café. – Disse desconfiado. Ela era meio estranha e essa proposta mais ainda.

- E depois de você ler, você doa para alguma biblioteca. Os dois pagam metade ninguém fica com ele. Me parece justo. – Estendeu a mão para ele.

- Aceito!

***

“O que está achando do livro?” – Tomou coragem para mandar uma mensagem.

”Mais ou menos, prefiro mais aventura, fantasia”

“Como assim?”

“Gosto de livros que contam histórias com lugares distantes, feitiços, um príncipe disfarçado”

“Já ouvi algo assim”

“Talvez hahahahaha”

“Parece uma história que já existe”

“É sim, a parte mais bonita é quando se encontram no jardim, é um príncipe encantado e ela só descobre quem ele é quase no fim”

“Príncipes encantados. Você anda vendo muito Disney”

“Você que anda vendo de menos rs.”

“Talvez hahahahahaha”

“Bom, acabei ele hoje de tarde, um café amanhã pela manhã, em frente à livraria”

“Um café por favor!”

“Bem quente!”

***

 Após o café e uma conversa extremamente agradável, passaram pelo lugar favorito dos dois: a livraria, é claro. Por entre as estantes ela falava sobre os livros que havia lido e ele tentava dizer algo inteligente vez ou outra e ficou tranquilo ao ver que ela estava perdida por entre todos os livros que estava indicando para ele.

- Cidades de Papel. Não leia!

- Nossa, que ênfase. Motivo?

- Não tem um final lá muito feliz. Livros sem finais felizes deveriam ser banidos do mundo.

- Eu gosto de livros sem finais tão felizes assim, mostra o que a gente quer realmente. Tipo você, que não quer o que acontece naquele livro.

- Precisamos de finais nem tão felizes para saber quais são os felizes?

- Acho que sim.

- Então leia o livro – O pegou da prateleira e deu nas mãos dele.

- Hum... acho que não - E devolveu.

- Vamos? – Olhava as coisas ao redor com certa vivacidade, como se estivesse perto de embarcar em algo novo e muito excitante. Saiu da livraria.

Ele apressou o passo, sem ter muita certeza se conseguiria acompanhar aquela garota.

Mas...

No fundo...

Ele sabia que tentaria.

Ou melhor, conseguiria.



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