sexta-feira, 19 de agosto de 2016

O Julgamento (ou Carta XX)

Mulher sábia, anciã, mãe e mestra,
Você diminui a escuridão do céu e parteja o nascer do sol,
Possuidora de energia e sabedoria,
Criadora do movimento e do significado,
Dai-me da sua força, ensine-me sua sabedoria.
No seu grande caldeirão Awen,
Eu experimento sua magia e conheço seu poder,
Eu transformo minha forma e aprendo com seu conhecimento.
Assim, eu começo a minha busca e ouço a sua inspiração,
Para um novo começo, o fim e a inevitável morte,
Meu renascimento sendo guiado por você, Grande Cerridwen!


Ouviu ao longe a trombeta que indicava: Fim.

Era um boneco feito de estopa e recheado com palha. Diariamente a jovem bruxa acrescentava as experiências que estava vivendo, mas apenas as ruins; não estava entretanto, criando um receptáculo de sentimentos maus, muito pelo contrário, agradecia e mentalmente depositava aquilo que deveria no boneco. Por 7 anos foi como um mantra, todos os dias às 23 horas se encontrava com a pequena forma e nela acrescentava as dificuldades, as dores, as ansiedades e tudo aquilo que não queria que permanecesse nela – não queria que essas coisas represassem em si como água parada, que estraga e não segue o ciclo natural.
***
Ouviu batidas à sua porta, 3 batidas rápidas repetidas 3 vezes. Achou estranha a pressa de quem estava ali, mas se levantou rapidamente e a abriu com cuidado.

Viu um homem de idade se apoiando em uma madeira nodosa, que lhe servia de apoio quase como uma bengala; era encurvado, a corcunda não era tão saliente mas o suficiente para que fosse perceptiva; olhos negros e serenos, ao fitá-los a jovem pode jurar por instantes estar contemplando o infinito; suas vestes eram simples em tons de cinza, fazendo com que ela se lembrasse de aldeões de uma vila próxima.

- Bom dia senhor.

- Bom dia minha jovem, teria por acaso um copo de água para este velho senhor?

- Sim... entre.

Vagarosamente o velho caminhou para dentro da casa, e sem convite encostou sua bengala na parede e se sentou à mesa. Um pouco estranhada pela entrada do homem e a clara indiferença pela falta de convite para sentar-se, foi até a cozinha e encheu um copo com a água do jarro de barro. Levou até o velho e então viu um candeeiro sob sua mesa e se indagou de onde ele havia tirado o objeto.

Enquanto bebia a água, seus olhos permaneciam fixados na jovem, que começou a mexer as mãos para encontrar uma posição confortável diante do olhar fixo do velho. Ela não percebeu, mas ele sorria enquanto virava o copo.

- Gratidão minha jovem, uma moça que mata a sede de um velho recebe as bênçãos das Deusas.

Ao ouvir a frase a moça estranhou. Havia algum tempo que os adoradores dos antigos deuses eram perseguidos. Reteve-se em acenar com a cabeça e desejou que o homem fosse logo embora.

- Você tem se esforçado minha jovem. A sua busca não é em vão. – Levantou-se, pegou o candeeiro, a bengala e foi para a porta enquanto ela ficou em silêncio, agora com medo.

- Esteja pronta. – Com um sorriso benevolente, abriu a porta e partiu.

***

Era madrugada e uma luz de fogueira entrou repentinamente pela janela da casa. A jovem acordou assustada e teve medo que os aldeões estivessem à sua porta, prontos para levá-la a julgamento.
Respirou fundo, vestiu-se rapidamente e pegou o boneco de estopa e palha colocando no bolso de seu vestido. Sabia que fugir não era uma alternativa e dirigiu-se à porta em passos firmes, costas eretas e olhar determinado. Se fosse esse o momento, não iria morrer gritando ou pedindo clemência de quem não a possuía.

Abriu a porta.

Diante de si viu três mulheres, uma grávida, uma mais jovem do que ela, uma de idade avançada ao meio das outras duas. Em frente a elas, um caldeirão grande que fumegava sob uma fogueira. A bruxa sentia a presença de alguns animais por perto, mas não conseguia identificar quais eram.

- Seja bem-vinda. – Disseram as três ao mesmo tempo. Milhares de borboletas saíram do caldeirão e passaram a voar ao redor das 4 mulheres, criando a sensação de não estarem mais na frente da casa da bruxa. Maravilhada, ela entendeu o que estava para acontecer.

- Costurado com amor. – Disse a grávida

- Guardado com carinho. – Disse a mais jovem

- Depositada toda a dor. – Disse a mais velha

A bruxa deu alguns passos à frente e tirou o boneco do bolso – parou diante do caldeirão e o olhou para ele em suas mãos.

- O que ofereço é tudo o que tenho. – Ergueu o receptáculo – Ad astra per áspera.

- Até às estrelas, sob os espinhos. – Disseram as três.

A bruxa então deixou o boneco cair no caldeirão; as três mulheres seguraram juntas a colher que mexia o caldeirão e começaram movimentos circulares, revelando tanto dentro do caldeirão quanto na fumaça que dele saía, tudo aquilo que a bruxa havia depositado no receptáculo.

As borboletas passaram a voar em uma velocidade muito maior e a fumaça cercou a bruxa que passou a sentir tonturas. Sentiu seu corpo desfalecendo enquanto tentava manter um único pensamento: “Gratidão Cerridwen”.

***

Acordou em sua cama; ainda que sentisse um cheiro de fumaça em suas roupas, ainda que não houvesse mais o receptáculo, ainda que tivesse visto algumas borboletas dentro de sua casa, não tinha certeza se aquilo foi um sonho. Mas ainda que fosse um sonho, ela sabia que havia sido real.

Ouviu batidas à sua porta, 3 batidas rápidas repetidas 3 vezes. Achou estranha a pressa de quem estava ali, mas se levantou rapidamente e a abriu com cuidado.

O velho viu então uma jovem de olhos azuis e com profundidade tal como o mar e se sentiu enfeitiçado por algum momento; um rosto firme, expressão sem medo; segurava a porta e estava ali parada bloqueando a entrada; no alto ao seu lado, uma mariposa estava pousada na lamparina que balançava levemente ao vento.

- Bom dia senhor.

- Bom dia minha jovem, teria por acaso um copo de água para este velho senhor?

- Sim. Aguarde aqui.

Ao observar a porta se encostar enquanto esperava, o velho sorriu pela jovem bruxa.
Ao voltar a mulher trazia um jarro de barro em seus braços.

- Aqui, leve-o caso sinta mais sede.

- Gratidão minha jovem, uma moça que mata a sede de um velho recebe as bênçãos das Deusas.

- Ubi caritas et amor, Dea ibi est.

O velho lhe deu as costas e deu alguns passos com seu candeeiro balançado de um lado para o outro. 

Olhou para trás brevemente.

Sorriram um para o outro.




terça-feira, 16 de agosto de 2016

A Morte (ou Carta XIII)





Ouviu ao longe a trombeta que avisava: Fim.

Como pode um sentimento acabar por culpa de erros cometidos de formas tão grotescas? Como pode uma relação encontrar em seu fim uma forma de superar e se erguer? Os olhos ficam marejados, o estômago em um turbilhão de sensações (nenhuma boa), a boca em contradição com os olhos, mantém-se seca e as mãos ficam geladas.

A espada atravessa o abdômen do samurai que não grita, não geme. Apenas aceita que é aquele o momento de demonstrar sua força, sua coragem e sua honra. A dor lenta espalha-se por todo o seu corpo e o consome por inteiro. Mas ainda que as vísceras estejam à vista da plateia, ele não deve parar – assim recobrará aquilo que foi perdido. De um lado a outro, um corte profundo. Não tão diferente do que às vezes devemos fazer.

A Morte passa levemente sua mão pelo corpo estendido, enquanto o público começa a se dispersar. À sua vista a adaga ensanguentada enquanto que não tão longe, a família mantém-se impávida.

- Estou pronto – Disse o samurai.

- Um ato bonito de qualquer forma. Haverá um tempo que isso não mais será possível, mas as pessoas escolherão outras formas de fazê-lo. – Havia um ar de desinteresse em sua fala, quase desdém.

O samurai assentiu, sem saber do que a mulher falava.

- Não acha estranho como há tanta dor nos términos? Há um quê de sacrifício. Não entendem uma lei universal simples.

O homem manteve-se ereto enquanto ouvia, com uma expressão sem sentimentos.

- O fim deveria ser um jubilo. Sabe o que significa? O fim significa que quando a folha seca cai no chão ela servirá para o propósito de nascimento e crescimento de outra árvore. O ciclo sem fim a que todos que estão vivos permanecem presos.

- Diga-me, jovem alma, do que mais gostava quando era encarnado?

- Gostava do sol da manhã, quando me sentava à varanda de minha casa e sentia uma brisa calma e fria no rosto.

- Diga-me então, jovem alma, o que você imagina que ainda irá gostar quando voltar a ser encarnado?



terça-feira, 31 de maio de 2016

O Imperador (Ou Carta IV)

Imperador
Primeiro de seu Nome
O Grande Deus Sol
Conquistador de Reinos
Criador de Exércitos
Estrategista Supremo


Acordou às 5 da manhã. Tomou um banho rápido, café da manhã para ela e para a criança que iria para a escola dali a 2 horas. Pegou a filha menor, enrolou em um pano que passava pelo seu pescoço e mantinha a pequena segura, sentada ou deitada, próxima de seu peito. Cesta de salgados feitos no dia anterior, outra um pouco menor para os doces – colocava amor nos alimentos que preparava, pois conforme sua mãe ensinou, às vezes uma pessoa só precisa de algo feito com amor para começar o dia bem.

Foi para o ponto de ônibus, como todos os dias. Pegaria dois e chegaria à estação de metrô, com sorte venderia algo ainda no ônibus. Já no trem a situação seria um pouco diferente, não era permitido comercializar nada em seus vagões, mas uns conhecidos sempre compravam algo e assim outras pessoas que saíram apressadas de casa a iriam ver e pediriam também. Grande parte do que fizera para vender se esvaziava nesse trajeto e o restante venderia no centro. Todos os dias os mesmos caminhos.

Exceto naquele dia, em especial. Veio outro motorista, não o que fazia a linha habitualmente. Pediu, como sempre, para que abrisse as portas traseiras, já que teria dificuldade de passar com a criança pela catraca.

- Não posso abrir não senhora.

- Como assim não pode abrir?

- Não posso... – e começou a sair com o ônibus.

- ELA VAI PAGAR – Alguém já acostumado com sua presença no ônibus naquele horário gritou.

- Ah sim... – e abriu a porta.

Subiu, constrangida. Embora se sentisse mal, tinha que vender seus salgados e assim o fez, afinal, não havia nada de novo em um país racista.

Mas naquele dia havia sim.

Timidamente um homem se aproximou.

- Com licença... posso conversar com você?

- Sim claro. - disse com seu sorriso inabalável no rosto.

- Sou fotógrafo... trabalho com fotos de empoderamento e você... bem... você é linda com a criança nos braços.

- Obrigada. – Outro sorriso, novamente gentil.

- Poderia tirar uma foto sua?

- Sim, sem dúvidas. – e se preparou para a foto.

Sem saber, que ali, em um assento de ônibus, com duas cestas e uma criança no colo e como tantas outras mães negras que saem pela manhã para conquistar o sustento para seus filhos e ganhar a vida honestamente, invocava figura indomável de um Imperador.

O assento? Seu trono.

Suas crianças? Seu reino.

Suas cestas? Seu cetro

Seu cabelo crespo? Sua coroa.

E nunca, motorista algum, iria fazer com que ela se sentisse menor. Pois não era.
Sua alma é imensa, maior que este país.



*Conto baseado em fatos reais.

terça-feira, 24 de maio de 2016

A Justiça, Ou Carta VIII



Ergueu-se do chão, embainhou a espada. Logo mais uma luta se aproximaria e estava cansado. Passou os dedos no bigode espesso, ergueu os olhos para a imponente estátua diante de si. Diziam que protege a todos que assim o merecem e diante desses anos de guerras, pedir por mais uma proteção poderia de alguma forma pesar demais. Com olhos de uma criança inocente e meio sorriso no rosto, disse: 

- Uma vez mais, Grande Dama. Abençoe este guerreiro para o que tenha que acontecer. 

Vestiu-se com armadura, elmo e pegou o escudo. Montou seu cavalo e foi para o campo de batalha.

* * *

Entregou seus sentimentos sem medo, talvez uma atitude um pouco provocada pelo Louco, com a força de um Carro. Mas o fez. E agora pedia clemência e suspirava por uma luz no fim do túnel que demonstrasse a ela que não tinha feito errado. Acendeu um cigarro, depois outro e outro. No quarto, o celular vibrou. Mensagem da operadora. Assim, iria para a quinta vez que usaria o isqueiro. Estava particularmente bonita naquele dia, um vestido que ia um pouco acima do joelho, vermelho é claro, meias finas pretas, bota de cano curto e um lenço que por vezes funcionava como xale. E ainda não sabia o que diria, se diria e por onde começaria. Ele entrou apressado, com certa urgência no andar, talvez por estar atrasado. Sentou-se a mesa e a olhou no fundo de seus olhos castanhos. 

* * *
Lutou com todas as forças pelo cargo, fez tudo o que podia e algumas coisas que não podia. Deixou de lado sua vida social (algo que pensava não ser mais necessário desde o término da faculdade), terminou relacionamentos, não visitou os parentes por algum tempo. Dedicação total. Mas ainda sentia que não teria como alcançar o que desejava. Motivos? Nenhum aparente, talvez fosse a política e o jogo dos poderes dentro da empresa. Pensou em vários momentos em desistir. Talvez assim pudesse recuperar o tempo perdido dentro do escritório – muito embora, não se sentisse confortável em dizer que o tempo foi, de fato, perdido. Fez algumas amizades, ampliou a quantidade e a qualidade de seus contatos e isso por si só já deveria ter valido a pena. Talvez.

* * *

- E daí? 

- Bem... o guerreiro morreu. Era velho demais para mais uma batalha e assim, por mais que tentasse não poderia sobreviver. 

- O que há de justo nisso? 

- Ergueram uma estátua dele na praça principal da cidade e todos contavam suas façanhas e as crianças fingiam ser o homem enquanto brincavam. A Justiça pesa todas as ações, pesa tudo o que é favorável e o que não é, e oferece aquilo que lhe é por direito. 

- Sei... e a mulher? 

- O namoro acabou. Mas não que fosse sua própria culpa, mas como permanecer em algo que foi negligenciado pelo seu parceiro? Em um primeiro momento, a situação se configura ruim para ela, mas quem estava colhendo os frutos mal plantados era ele. A Justiça pesa todas as ações, pesa tudo o que é favorável e o que não é, e oferece aquilo que lhe é por direito. 

- Hum... é... meio estranho. 

- O homem, ele não conseguiu o cargo por mais que tivesse se esforçado. Mas foi chamado por outro setor, onde cresceu muito mais se valendo dos conhecimentos adquiridos anteriormente. A Justiça pesa todas as ações, pesa tudo o que é favorável e o que não é, e oferece aquilo que lhe é por direito. 

- Não entendi, eles parecem que se deram mal, mesmo tentando fazer o certo. 

- Você entenderá... - Ofereceu mais uma xícara de chá, enquanto olhava para o jogo aberto.

E solene, a Justiça encontrava-se no centro da mesa.



terça-feira, 3 de maio de 2016

A Estrela (Ou Carta XVII)



A torre cai impiedosa. Aqueles que estão dentro são lançados para fora arrebatadoramente e não há mais teto ou parede para se proteger, não há mais bases sólidas para se manter. O destino cármico bate à porta e sem aviso a abre, escancara, destrói. Ficam para trás apenas destroços. 

E nossos jovens heróis, jogados ao tempo e à própria sorte, em total revelia à sua vontade? Sentem a grama fresca sob suas mãos, quando se apoiam e olham para a lua, que paira solene sob suas cabeças. Embora perene e de brilho intenso, a lua cheia não é a única a se mostrar a eles. Sob um céu estrelado, recordam-se de uma estrela em especial que a partir de um local distante, guiou grandes reis magos em uma peregrinação.

E ali está ela novamente, e como em um passe de mágica a lua escurece. Seu desaparecimento traria trevas e caminhos distorcidos, frutos de uma visão pouco acostumada à escuridão. Traria, se não existisse o astro luminoso com outros sete astros brilhantes ao seu redor. Abaixando os olhos, os heróis veem uma figura feminina nua, com um jarro que verte água infinita. Seu olhar, negro como a noite e com pequenos pontos brilhantes, acalenta seus corações e onde havia desespero pela derrocada, transforma-se em plena luz. 

“Sou Pandora, que abre a caixa e liberta a esperança. Sou Héspero, a Estrela Vespertina. Sou Eósfero, A Estrela da Manhã. Sou Astreus, Senhor das Estrelas. Sou a Cura e a Certeza. Sou aquela que derrama as águas da criação sob a terra. Vinde a mim e deixai os destroços daquilo que já não faz parte de vós.” 

Tiraram o elmo. Abandonaram a espada e o escudo. Despiram-se da armadura. Seguiram nus em sua direção.



terça-feira, 5 de abril de 2016

O Sol ( Ou Carta XIX)

POEMA AO SOL

Sol que me ilumina a face
E me silencia a dor.
Sol que encanta os olhos
Sol que dá vida a flor.

Sol que me faz voar
Nas plumas dos seus raios.
Sol que pronuncia risonho
Um poema de abraçar.

Sol que desperta a vida
No cantar dos pássaros,
No arrastar da brisa.

Sol que me traz a calma
Abraça-me com sua luz
E da-me paz a alma.

TiaoNascimento
(http://www.tiaonascimento.prosaeverso.net/visualizar.php?idt=421128)



O rio corria limpo aos seus pés. Deitou-se para esticar a coluna e arrumou o óculos que insistia em cair quando estava suando. Mexeu os dedos dos pés embaixo da água enquanto abria os braços e sentia o calor do sol o tocando.

- Céu azul, você percebeu? – Perguntou o humanoide.

- Sim, dia maravilhoso. – Respondeu o rapaz.

- Já fez o que tinha de fazer?

- Sim, tudo.

- Limpou o espelho?

- Até mesmo devolvi para sua dona.

- Alimentou os lobos?

- São cães. Se eu der mais comida irão engordar.

- Limpou a casa?

- Está cheirosa.

- Então é tempo de deitar e deixar o sol te aquecer?

- É passada da hora.

- Posso então tocar uma melodia?

- Claro meu amigo.

O sátiro tirou a flauta do bolso e colocou-se a tocar a história de um antigo deus que venceu um dragão e dele obteve um oráculo. Este mesmo deus viveu outras grandiosas histórias e por vezes sofria por desdenhar de outros deuses, como quando o vento matou por inveja, o seu mais belo e estimado amor.

- Arcos, flechas, conquistas, amores. Uma bela música.

- Tragédias, algumas tragédias... principalmente quando seus amores foram todos tirados dele.

- E não perdeu seu brilho.

- O deus sol nunca perde. Aliás, daqui, virando um pouco a cabeça de lado... talvez seja só o sol a pino... ou a sombra próxima da cerejeira, mas como ela não recai sobre você, imagino que não seja isso também. Meu velho amigo, que luz apagada é essa?

Virou a cabeça para o fauno, suspirou.

- Tédio.

- Então coloque agora a se levantar, vá buscar o arco, vá caçar.

- Hoje não Agreevos.

O sátiro se silenciou e olhou para as folhas da cerejeira que balançavam levemente com a brisa.

- Há um rapaz, muito belo, que se banha no lago de baixo. Lá perto onde tem tantas daquelas flores... como se chamam?

- Jacinto.

- Sim, este é o nome dele. Por que não vamos dar uma volta por lá?

- É mesmo bonito? Vale a pena a caminhada?

- Por fora posso afirmar.

Levantaram-se e foram. Desceram a trilha e caminharam por uma vegetação aberta que permitia alguns raios de sol passarem por suas folhagens, encontraram alguns frutos suculentos e se divertiram fazendo o jogo da verdade, em que cada um conta uma história de si mesmo e o outro deve adivinhar se é verdade ou mentira.

Chegaram a um ponto da trilha que era possível ver o lago logo abaixo. E nele, um jovem nadava nu, com a pele morena sendo tocada pelo sol e pela água. Afundava, dava braçadas, se deliciava naquele dia quente.

- Bonito mesmo.

- Vá até lá, entre na água.

- Não, você é louco? Vou assustá-lo.

- Você também tem seus atributos, embora beleza não seja o mais enaltecido deles.

Riram um para o outro e o rapaz escutou uma voz alta.

- Quem está aí? – Falou alto em certo tom tenso. O sátiro empurrou o rapaz que quase rolou barranco abaixo até chegar ao lago. Por reflexo, segurou um galho de árvore.

- Ahm... desculpe incomodá-lo... estava vindo para o lago e bem... não sabia que tinha alguém aqui.

- Ah sim, eu já estou saindo... fique a vontade.

- Não se preocupe... venho outra hora.

O rapaz do lago fingiu não ouvir e embora fosse contar mais tarde sobre a vergonha de estar nu, naquele momento o outro jamais poderia imaginar.

Às margens do lago, estenderam as mãos e se cumprimentaram.

- Venho todos os dias por esse horário... se quiser podemos... – percebeu que não tinha com o que completar a frase.

- Sim, podemos... tentarei vir amanhã. – Respondeu rapidamente o outro.

Jacinto partiu rápido, talvez pela sensação de vergonha.

O sátiro que fez um balanço com cipós e magia, tocou mais uma vez a flauta, fazendo o amigo lhe olhar com um sorriso.

- Obrigado.

- Hora, vejamos só se não temos um novo brilho aqui? Bem quente por sinal.


Riram.


sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

A Lua (Ou Carta XVIII)



- Não entendo senhora, faço de tudo, me esforço, mas as coisas nunca acontecem e quando acontecem nunca são da forma como espero. Fico tentando sempre e nada flui como deveria. Não sei se o problema sou eu ou os outros ou o motivo que isso acontece. – parou por um instante olhando para o chão, com a testa franzida – Preciso de uma luz.

- Não me chame de senhora.

- Sim, tudo bem, me perdoe Grande Avó.

- Você diz que seus planos não fluem?

- Nunca, as coisas não dão certo.

- Entendo. – pegou uma vara e no chão que tinha areia, em frente à fogueira, desenhou um xis e um pouco distante deste, fez um círculo.

- Aqui – apontou o xis – é você, aqui – apontou o círculo – é seu objetivo.

Parou por um instante e olhou de forma profunda para o jovem à sua frente.

- Me mostre qual a melhor forma de se sair daqui - apontou de novo para o xis – e chegar aqui – apontou para o círculo.

Com seus dedos, ele traçou uma linha reta, do xis ao círculo e olhou para ela.

- É isso? – perguntou a velha.

- Sim, de mim ao objetivo.

- Quando você puxa a linha do xis, atravessa a borda do círculo. É isso que você quer? Mudar seu objetivo final? – Com a vara, bagunçou novamente a areia e refez o xis e o círculo.

- De novo.

E ele tentou de novo, puxou do círculo ao xis e ao ser questionado se era isso que queria, que o objetivo fosse até ele, teve sua tentativa novamente apagada. Tentou 18 vezes, e em nenhuma delas o questionamento da anciã lhe parecia satisfatório.

- Não sei o que você quer de mim. – disse o jovem.

- Quero que você olhe todas as suas tentativas, o que restou delas?

- Nada, você apagou todas...

- De novo – fez o xis e o círculo novamente.

Sem pensar, o jovem passou a mão na areia, apagando os dois símbolos e olhou para ela, obviamente frustrado.

- Você precisa ver. – disse a velha, agora sorrindo.

- Ver o que?

- O que há de comum em todas suas tentativas?

- Não sei – e incomodado, passou a mão nas próprias roupas, sujando-as com a areia avermelhada. Percebeu que havia se sujado e ficou mais frustrado.

- Você nem ao menos é capaz de ver o que há ao redor do seu caminho. – sorriu, parecia ter vontade de gargalhar.

- Areia?

- Você sujou suas mãos não foi mesmo? Sujou suas roupas e nem conseguiu atingir o objetivo. – os olhos dela agora brilhavam. – E você não atingiu o que queria por que me ouviu, por que perguntei.

- Você disse que eu estava errado.

- Não, eu perguntei se era o que você queria. Em nenhum momento você afirmou que era. E ainda sujou as próprias mãos, as próprias roupas.

Ele ficou em silêncio olhando para onde estava o xis e o círculo.

- Nossas vontades as vezes são como a Lua, que reflete a verdade do Sol, mas de forma que não percebemos, que não notamos. Ficamos frustrados, por que percebemos o reflexo mas não o que há de fato em nós. E por vezes nos sujamos, achando que estamos de fato, em uma tentativa.

Olhou para ela, pegou uma vara próxima, desenhou dois xis, riscou uma linha entre eles e voltou-se para ela firmemente.

A Grande Avó sorriu.

Dime luna de plata
Que pretendes hacer





segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Os Enamorados (Ou carta VI)


“Era uma vez uma mulher muito, muito poderosa. Casou-se por amor e logo após sua lua de mel, descobriu que seu marido havia desaparecido. Em grande lamentação, viajou por todo o mundo em sua procura – e quando suas lágrimas tocavam o solo, transformavam-se em ouro; quando tocavam o mar, transformavam-se em âmbar.

O descobriu na forma de uma grande besta e ao perguntar o que houve, entendeu que ele havia sido banido pelos deuses e transformado em uma fera marinha. Ainda que tivesse uma terrível aparência, ela decidiu por permanecer ao lado daquele que tanto amava. Jurou vingança contra os deuses e contra todos aqueles que os reverenciavam.

Mas tamanho poder não podia se opor aos deuses, então decidiram que o homem seria enviado aos céus, onde ela poderia visitá-lo sempre que assim desejasse.”

- Quando se trata de amor minha querida, nada pode impedir o coração.

- Mas como ela pode ficar com ele mesmo estando horrendo?

- Escolhas. Sempre temos o direito de fazer as nossas. Seja para nosso bem, seja para o mal e quando se escolhe com o coração, o superficial é como uma fina camada de gelo que esconde um profundo lago.

- Mas ele tem o rosto queimado, é quase deformado.

- O que mais você vê?

Pensou por um momento, fitando os olhos castanhos escuros à sua frente.

- Um homem bom.

- E o que você sente?

- Mas o que dirão?

- Dirão muitas coisas. Sempre há algo a ser dito.

Assentiu, e diante dessas palavras, foi ter com o homem que lhe pedira em casamento. Estava certa de que não iria se casar. Seu coração pertencia a outro, àquele que lhe ensinava com palavras justas e carinhosas, àquele que lhe mostrava o caminho.

E o que diriam os outros quando ela por fim pertencesse a ele?


O que sempre dizem. Sempre há algo a ser dito.



segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

A Torre (ou Carta XVI)

C  U  I  D  A  D  O
U  I  D  A  D  O  C
I  D  A  D  O  C  U
D  A  D  O  C  U  I
A  D  O  C  U  I  D
D  O  C  U  I  D  A
O  C  U  I  D  A  D


O raio cairia de qualquer forma. Acertaria sua torre mais alta e lançaria os dois para certa queda incerta. Abalaria seu mundo e explodiria tudo aquilo em que acredita, quebrando-se e caindo os cacos.

Apenas aquilo que é real permanece.

O terremoto viria de qualquer forma. Levaria suas sólidas bases e lançaria os dois para uma inconfortável prisão de pedra e concreto. Estremeceria seu mundo e faria com que tudo aquilo que fosse dado como certo ruísse debaixo para cima, do bem construído alicerce ao teto.

Apenas aquilo que é real permanece.

O fogo viria de qualquer forma. Danificaria suas fortes paredes e sufocaria os dois em fumaças e cinzas. Queimaria seu mundo e faria com que tudo aquilo que fosse dado como correto se consumisse nas chamas de sua própria paixão.

Apenas aquilo que é real permanece.

O mar viria de qualquer forma. As ondas bateriam contra suas estruturas e derrubaria os dois para uma gelada e profunda mudança. Inundaria seu mundo e faria com que tudo aquilo que fosse dado por imutável encontrasse uma correnteza de incertezas.

Apenas aquilo que é real permanece.


A brisa veio ao amanhecer;
O chão se fez firme ao amanhecer;
O fogo destruidor se apagou ao amanhecer;
As ondas recuaram ao amanhecer;


E novamente, como sempre, podemos construir nosso sagrado refúgio. Para que enfim, seja destruído e o ciclo de fraqueza nos faça mais forte.

E a torre? Quanto mais poderosa e forte, maior a tempestade.

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

O Mago (Ou Carta I)

Atravessou a rua em passos rápidos. Suas vestes surradas e os panos que enrolou nos pés para que tivessem uma proteção precária fazia com que os outros moradores da cidade se sentissem nauseados. Seu cheiro também não era dos melhores. Mas ainda que olhassem torto para ele, corria em direção à praça principal para ver a apresentação que se seguia.

O homem fazia gestos lentos com as mãos e moedas sumiam e reapareciam, com gestos mais rápidos fazia animais desaparecerem. O menino olhava maravilhado cada um dos movimentos e mesmo com a barriga faminta, sequer percebeu as moedas que o homem ia recolhendo.

Ao fim da apresentação, o garoto se esgueirou por entre as pessoas que se movimentavam para retornar aos afazeres habituais e viu o homem terminando de reunir seus materiais. Aproximou-se.

- O senhor precisa de um ajudante? – Visivelmente nervoso fechou as mãos cravando a unha na sua palma.

- Por que precisaria? – O homem mal olhou para o garoto.

Seguiu um silêncio entre os dois, o menino buscando algo inteligente para que pudesse dizer ao mago, enquanto que o outro reunia seus últimos materiais de apresentação – olhou para o menino e deu as costas.

Não satisfeito com o desfecho, seguiu o homem pelas ruas tentando não ser percebido, e após algumas vielas viu o homem entrando na estalagem “À capela”, conhecida pela apresentação de músicos que não utilizavam nenhum instrumento musical.

Entrou em um beco, subiu em algumas caixas, se pendurou na beirada do telhado, subiu, e com o máximo de cuidado que possuía foi olhando de janela em janela do primeiro andar da estalagem, até que por um golpe de sorte, avistou o homem entrando em um dos quartos. Abandonando a precaução, correu na direção da chaminé e quase quebrando as telhas, se escondeu atrás dela.

Viu o mago tirando sua cartola, e soltando o cabelo firmemente preso, balançou a cabeça para se sentir livre. Foi até a mesa diante da janela do quarto, olhou para ela e sorriu. Levou a mão até o bigode e o retirou. O garoto abriu a boca em espanto.

Eis que o mago (ou a maga) olha na direção do garoto, que pensando estar escondido se mantém imóvel.

- Vai me esperar ficar nua para sair daí?

Envergonhado, o garoto deu alguns passos para o lado.

- Você precisa de um ajudante? – Não conseguia olhar para ela.

- Por que precisaria?

- Por que posso usar tudo o que sei para te ajudar em tudo o que precisa.

- Tudo o que você sabe?

- Sim. Que você é uma mulher.

- Parece que temos um acordo, agora entre e venha comer algo.



quarta-feira, 11 de novembro de 2015

O Louco (Ou Carta 0)

                                       Louco, Louco, Louco
                 Gritam aqueles lá
                                       de dentro de uma caverna
           no escuro a se alegrar


Você é Louco. Eles disseram.

De fato, era. Mas não pelos motivos que todas aquelas pessoas julgavam. Era insano por se jogar do penhasco. Sempre. Medo da queda? Por qual motivo?

Seu precipício era seu Eu e ao mergulhar tão profundamente sem pretensões de retorno, tornava-se o Grande Maluco do Desfiladeiro. Sua última montanha, a qual escalou sem grandes problemas, era bem alta. Até mesmo para ele. E por que não?

Lançou-se sentindo o vento passando pelo seu rosto e o ar sumindo de seus pulmões. Jogava-se para a vida enquanto em uníssono todos bradavam: É A MORTE CERTA.

E qual era a certeza na queda? O fim, claro. Quando com um baque surdo finalmente chegaria ao chão e ao contrário do que se esperava, não encontraria seu fim. De forma alguma seria a morte o fim em si: é apenas o recomeço.

Ouroboros não devora sua cauda na espera de sua própria destruição e o louco não pula no abismo esperando pela aniquilação de sua vida.


A cada salto uma nova viagem, um novo começo.