terça-feira, 20 de setembro de 2016

Oração nº 1 - A trilha do Rei de Espadas

Toda reza tem no fim um amém.
A Flor e o Navio, Capela. 



A língua é afiada como uma adaga, se não notar, ela o cortará.

O pensamento é rápido como o vento, não se prepare ele o carregará.

Não aparenta emoções, os olhos vidrados enxergam apenas o seu objetivo.

Move-se apenas em frente, atravessando tudo em seu caminho,

Não atropela ou empurra, passa por entre os obstáculos,

Os fracos e os sem estrutura vão ao chão, não resistindo à força avassaladora tal qual tempestade.

Brande orgulhosamente sua espada, a empunhadura é entalhada com o seu conhecimento e a lâmina forjada pela experiência.

Alguns diriam que se trata de um homem capaz de tudo para possuir o que quer.

Outros dirão que é frio e calculista, um homem maduro, de lábia.

Ele mesmo considera-se uma pessoa maldosa,

Mas talvez seja porque acredita demais que exista o certo e o errado, e que nem sempre o que precisa ser dito ou feito julga correto.

Há aqueles que assim como eu observa em admiração,

Contempla sem julgamentos a trilha que o guia, a motivação que o carrega e as conquistas que consegue.

O Príncipe de Gládios é coroado Rei, agora precisa de castelo e terras.

Sem olhar para trás, acena aos companheiros de tantas batalhas, como que em agradecimento.

Monta em seu cavalo, saca sua espada e cavalga rumo ao desconhecido,

Com a única certeza de que será bem sucedido.


- Contos da Jornada da Conquista, A dança das Lâminas - Introdução.

***


(16) A última visita

Caminhava com passos firmes em direção à tenda, apesar da convicção, era possível perceber uma certa incerteza em seu semblante, algo não estava certo. Ele não era das pessoas mais abertas que conheci, na verdade, por medo de que as emoções entrassem no caminho de seus objetivos as mantinha guardadas em algum lugar de sua mente e não de seu coração, reservava elas para aqueles que julgava merecedores. Ao por-se para dentro arrumou um velho encantamento dependurado ao lado da entrada.

“Você sabia que é de mal gosto manter amuletos de repulsão ao lado da entrada ao receber visitas?”

“Eu vou jogar essa velharia fora”

“Finalmente” replicou rindo.

“Ele nunca funciona, você continua entrando”

Riram juntos.

“Eu vou partir velha amiga, vim à sua tenda pedir um último conselho às cartas” – lançou um meio sorriso e continuou como quem estivesse à se explicar – “Não há mais nada nessas terras para conquistar, toda justiça que eu poderia fazer já foi feita e aquelas que não posso corrigir me corrõem, sinto-me como um carvalho em um pequeno vaso.”

“Entendo”

Saquei as cartas enquanto ouvia suas dúvidas e expectativas, ao final disse que havia sido nomeado rei, porém para isso seria necessário conquistar um novo território, terras vizinhas porém desconhecidas.

“Parabéns pela nomeação, vejo que seu futuro será brilhante, entretanto a conquista será árdua,  os obstáculos que você não transpassou aqui serão os mesmo lá, as amarguras serão as mesmas, é como dizem, muda o teatro, mudam os personagens, porém o enredo será o mesmo. A vida tem um jeito irônico de nos obrigar a aprender as liçoes às quais fugimos”

“Não me contou novidade alguma bruxa”

“Claro que não, se bem te conheço não é possível haver algo em que você não tenha pensado. Mas lembre-se: a lealdade de amigos ainda não foi conquistada, cuidado pois há aqueles que não veem com bons olhos um novo rei de gládios”

“Obrigado pelo conselho” - levantou-se rapidamente ajeitando a espada, sem jeito não sabia exatamente como se despedir.

Foi em minha direção como se fosse beijar meu rosto. Resistiu. Assenti. Não havia necessidade, não para ele. 

Não para o Rei de Espadas.


- Contos da Jornada da Conquista, A dança das Lâminas - Epílogo.


Obrigado Bruxa, sempre nos auxiliando com suas cartas e sua magia sutil.


segunda-feira, 19 de setembro de 2016

O Enforcado (ou Carta XII)


"O mundo está ao contrário e ninguém reparou"
Relicário, Nando Reis






Apertou a tecla. Uma, duas, três vezes. Respirou fundo e tentou pensar se havia alguma forma de arrumar. “Deve ter”, pensou. Desmontou o teclado, tirou o cabo que ligava ao notebook. Assoprou, cutucou a tecla com um palito de dente. Percebeu um grampo de cabelo caído no chão, ao lado do sofá – não havia mulheres na casa e um grampo de cabelo ali era bem estranho, mas quem sabe pudesse servir para alguma coisa. Usou o grampo e voltou a cutucar.

Nada.

Decidiu que não iria desanimar, tentou limpar mais um pouco e soltou uma borrachinha que havia logo abaixo da tecla, tentou limpar mais um pouco. Assoprou e percebeu um pelo branco (provavelmente do seu gato), tirou ele dali com certa dificuldade e ligou o teclado novamente e foi pegar um copo de água enquanto a máquina reiniciava. Não funcionou. Apertou mais algumas vezes a tecla, tentou fazer a letra sair, sem sucesso algum.

 “A letra ‘d’”, pensou, “’d’ de desespero”, sorriu ao pensar isso. Lembrou-se de uma conversa mais cedo: “Desafio” seu amigo havia lhe dito mais cedo em uma conversa sobre o tarot, especificamente a carta Enforcado. Sorriu ao pensar nisso. Já havia tentado escrever sobre ele... embora tivesse uma certa dificuldade. Entender como ele funcionava e de que maneira poderia ser positivo o havia impulsionado em uma pesquisa pela internet, mas era complicado entender toda a sua nuance lendo as interpretações que outras pessoas davam.

Exceto talvez pelo desafio. Talvez fosse a melhor definição.

Colocou o notebook de volta no lugar, deitou-se no sofá e escolheu alguma música lenta em seu celular (o que particularmente não era difícil de encontrar). Respirou fundo e imaginou o Enforcado em sua frente, pendurado em uma árvore com uma leve brisa a balançar seus ondulados cabelos. Olhou para ele e tentou decifrar o que poderia lhe entregar de mensagem, mas tudo o que sentia era a sensação de prisão. Ainda na imaginação, sentou-se na grama e ficou a contemplar, até que percebeu a auréola ao redor da cabeça dele, o rosto sereno e os olhos fechados, enquanto permanecia imóvel. O mundo para ele estava de cabeça para baixo, mas o sangue do seu corpo não descia para a cabeça e não havia desespero para sair da posição. Calmaria.

O mundo de cabeça para baixo e calmaria.

   ificul  a  e.

   esespero.

   esafio.


   epen  ura  o.



terça-feira, 6 de setembro de 2016

A Imperatriz (ou Carta III)

Cetro, escudo, colo.




Era uma vez em uma torre distante, em um reino muito próspero, uma belíssima imperatriz. Sua gentileza era sua espada, seu sorriso o seu escudo. Um dia entretanto, o seu querido Imperador decidiu partir para nunca mais voltar – não queria mais permanecer preso em um castelo enquanto havia um mundo todo a ser explorado, um pássaro não deseja a gaiola.

A Imperatriz então chorou quando o viu subir no corcel e em uma cavalgada rápida entrou na floresta, sem em momento algum olhar para trás.

Pelos próximos dias, sem que ela quisesse ou alguém que os impedisse, cavaleiros de todos os reinos adjacentes vieram cortejá-la. Dezenas deles, que se amontoavam durante o almoço e tentavam desmerecer uns aos outros, gritando e esbravejando conquistas. A Imperatriz ouviu uma das serviçais dizer “parecem pavões agindo como hienas” e então percebeu o quanto aquilo tudo era cansativo e precisava de uma solução – ao menos antes que destruíssem o castelo.

Lembrou-se de uma velha amiga que morava em uma caverna não tão longe. A Imperatriz impediu que ela fosse morta pela fúria dos moradores da vila e então ela lhe devia um favor. Decidiu cobrá-la.
Organizou uma comitiva pequena e colocou-se a subir pelo rochedo até a caverna. O caminho era cheio de pedras, por duas vezes um dos membros perguntou à Imperatriz se era necessário correr esse risco. “Se fosse o Imperador aqui ele não insistiria na pergunta”, medo da segurança de sua senhora, ele lhe disse. Pensou que fosse melhor ignorar.

Ao chegar no fim da subida, uma caverna de entrada estreita que admitia apenas uma pessoa por vez e de cabeça abaixada. Ao olhar de fora para dentro da caverna, via-se um ponto brilhante que se movimentava de um lado para o outro rapidamente. A Imperatriz então tirou o capuz em sinal de respeito e entrou.

- Veja bem, uma ilustre visitante.

Cumprimentou a pequena criatura como as damas faziam.

- Narbe, faz um bom tempo. – Virou-se e pegou um pequeno embrulho das mãos de um dos serviçais. – Um pequeno presente.

A fadinha voou satisfeita e excitada, foi até o embrulho e retirou um minúsculo pedaço de  pano, todo trabalhado em fios finíssimos de ouro e com pedrinhas brilhantes por todos os lados.

- Magnífico! A espera pela sua volta até que não foi em vão não é? – E jogou nos ombros, ao redor do pescoço.

- Venho trazer um pedido minha velha amiga.

- Nada que envolva sangue ou dragões espero...

A Imperatriz sorriu nervosa.

***


Narbe sobrevoou o vilarejo, os que a viram gritaram e correram em desespero. O pânico se instalou nos corações das pessoas e alguns partiram em disparada na direção da floresta. A Imperatriz surgiu no portão do castelo caminhou firme e calmamente até o centro da vila.
Narbe pousou atrás dela e rugiu.

- Não temam população de Somewhere, ela está aqui para nos defender dos usurpadores e mentirosos que desejam o trono.

Aos poucos as pessoas foram se acalmando, enquanto que os bravos cavaleiros saíram do castelo com espadas em punho, alguns em cavalos, outros correndo aos gritos (a maioria corria e gritava, mas na direção oposta ao dragão).

Um rugido maior, o fogo os atingia e então em um suspiro, já não eram ameaça.

***

“Há uma história sobre uma Imperatriz que vive em uma cidade nem tão distante daqui. Dizem que seu coração foi estilhaçado pelo homem que a amava e isso a levou a atrair um grande dragão que passou a amá-la e protege-la. Dizem que o dragão em todo o seu poder destruiu os mais valentes cavaleiros dos reinos ao redor. Havia sangue, fogo e destruição e as pessoas amedrontadas fugiram da cidade e hoje a Imperatriz vive só, com seu dragão como companhia, à espera de um salvador.”

Amarílis ouviu atentamente, enquanto amamentava seu filho. Como não era sempre que um trovador passava por aqueles lados, quando algum chegava tudo acabava em festa e bebedeira. Seu marido não permitia que ela ficasse nas festas que se seguiam, mas ela se impunha e deixava claro que ninguém lhe diria o que fazer e nesse dia era a única em meio aos homens ao ouvir a história.

- Deve ter mais teia de aranha que lá em casa! – Gritou um dos homens e todos riram enquanto o trovador bebericava um pouco mais sem esboçar nenhum sorriso de escárnio.

Ele se levantou para pedir um pouco mais de vinho e Amarílis se aproximou rapidamente, antes que algum bêbado tomasse a atenção novamente do homem.

- É real? Digo, a história é real?

- E se for? – Olhou a mulher de cima a baixo.

- Se for, você disse que as pessoas da vila fugiram e que ele matou apenas os cavaleiros. Ora, ele não é um perigo para ela, não precisa de um salvador.

- Tem razão milady, mas não estava falando de um salvador que matasse o dragão, mas sim que a salvasse dela mesma. – Saiu cambaleando.

Pensou um pouco, cobriu o filho e foi para casa. Esquentou a água para as crianças tomarem banho, aprontou as refeições. Depois que foram dormir fez bolo e pão para que comessem no outro dia. Seu marido entrou cambaleando, caiu dormindo na cama e escorregou para o chão. Deixou tudo pronto e foi deitar.

Ao amanhecer, Amarílis já estava de pé e esperava montada em um cavalo próxima à estrada que levava para uma das cidades grandes próximas. Não tardou para o trovador aparecer preparado para partir da vila.

- Homem, para que lado fica a cidade da Imperatriz?

Ele a olhou de novo de cima a baixo e percebeu que qualquer palavra que dissesse seria rebatida. Imaginou a mulher o seguindo e espalhando-se a fama de que ele era ladrão de esposas. Já não bastava combater a fama de covarde quando fugiu do dragão, não precisava de mais uma – gostava muito dos pãezinhos quentinhos e do vinho e essa mulher que aparentava ser louca não iria tirar isso dele.

- Norte, até a Floresta que Fala. À esquerda, depois acompanhe o rio. – Bateu os calcanhares com força no cavalo e correu dali.

Voltou-se para o norte, iria passar novamente perto de sua casa e talvez parasse para ver se estava tudo bem, depois seguiria viagem. À medida que voltava lentamente para casa foi se sentindo mal pelos seus filhos que ficariam ali com aquele homem semi selvagem, começou a pensar se não era melhor abandonar a ideia de ir embora, suspirou.

Quando avistou sua casa, viu o homem com quem se casara jogar seu filho mais velho para fora da casa, e aos berros perguntava sobre ela, onde estava e acusava o menino de estar protegendo a mãe. Caído no chão, chorando em desespero a criança tentava dizer algo que era abafado pela irmã que gritava desesperada e em meio à confusão, o menino de colo também começou a chorar.

O homem pegou o machado e foi se aproximando do menino, enquanto os vizinhos saíam da casa e observavam a bagunça se instaurando. O homem dizia, mais para as pessoas ao redor do que para a criança, que iria fazer com que ele se tornasse um homem ao invés de ficar protegendo mulheres que não mereciam. Amarílis desceu do cavalo e pegou a espada que era de seu pai e foi correndo na direção dos dois. Aos berros o homem disse:

- Vou te ensinar a não ser uma maricas que fica embaixo da saia da mãe. – Ergueu o machado.

Um grito agudo de dor, e o homem caiu de joelhos no chão, atrás de si o machado caído e próximo à ele, suas duas mãos inertes. Continuava a gritar, mas não se sabia se por dor ou por desespero ao ver o cotoco que dava lugar às mãos.

Rapidamente Amarílis pegou os filhos, algumas roupas e amarrou a carroça ao cavalo: sabia o que estava por vir, os homens da vila iriam matá-la para que servisse de exemplo. Partiram com pressa para o norte.

***

Pararam para descansar na Floresta que fala, acendeu a fogueira depois de muito esforço e deu um pouco de comida para as crianças enquanto pensava de que forma iria conseguir mais.

- Meninos... a mamãe vai descansar um pouco, apenas um pouquinho, fiquem por perto está bem? – Abraçou o menino de colo e fechou os olhos.

Não percebeu quanto tempo havia passado, e se assustou com um rugido alto; um fogo alto que atravessava as árvores a fez olhar na direção que provavelmente o dragão estava e ouviu o grito de sua filha. Correu pelo mato até ela, tomando o devido cuidado para não machucar a criança no colo e a abraçou com força, enquanto encarava o dragão e a provável morte que viria a seguir.

A menina, embora com muito medo e com a cabeça enfiada em meio aos cabelos da mãe, estendeu sua mãozinha com as flores que havia pego pela floresta. E cheiravam tão bem!

Narbe paralisou diante da cena. Não havia nada sobre matar crianças que lhe oferecessem flores no trato feito com a Imperatriz. Bem, então que assim fosse feito.

Voltou para a forma de fada.

- Ahn... perdão, essa doce garotinha me assustou!

Sem entender, Amarílis se surpreendeu com a pequena.

- Vocês precisam de algo?

Tentando se recobrar do susto, a única coisa que conseguiu dizer foi: “Comida.”

Narbe então começou a tagarelar enquanto mostrava um caminho para a família seguir e ao perceber que não estavam logo atrás e pareciam catatônicos, disse com as mãos na cintura: ”Estão ou não com fome?”

O garoto que estava no mato observando veio junto à mãe e aos irmãos e passaram a seguir a fadinha que falava sobre diversas coisas, em tom alegre e radiante. Ouvi-la trazia a mesma sensação de sentir o sol matutino tocar a pele.

Passaram por uma cidade abandonada, e seguiram rua à cima na direção do castelo.

A fada abriu as portas e ali, sentada ao trono, a Imperatriz mantinha-se com um rosto triste. Amarílis fez uma referência que não foi notada, enquanto Narbe dizia algo sobre procurar o que comer.

***

Os dias foram passando, a doçura das crianças foi quebrando a tristeza em que a Imperatriz havia decidido para si. Amarílis cuidou do castelo como pode, mantendo a ordem e limpeza ao menos nos cômodos que mais usavam.

Lentamente a Imperatriz passou a sorrir, enquanto que cada vez menos Narbe ficava na forma de dragão sobrevoando as redondezas.

Se sentia feliz ao ver como a Imperatriz agia perto de Amarílis e foi percebendo que algo estava acontecendo. Sentia uma pontada de felicidade e ao mesmo tempo tristeza... em breve iria partir.

***

“Há uma história sobre uma Imperatriz que vive em uma cidade nem tão distante daqui. Dizem que seu coração foi estilhaçado pelo homem que a amava e isso a levou a atrair um grande dragão que passou a amá-la e protege-la. Dizem que o dragão em todo o seu poder destruiu os mais valentes cavaleiros dos reinos ao redor. Havia sangue, fogo e destruição e as pessoas amedrontadas fugiram da cidade, e por muito tempo a Imperatriz viveu só.

Mas um dia uma mulher chegou com três crianças de grande poder e contra essa família o dragão nada pode. Foi um grande alvoroço quando elas decidiram por um casamento, atraindo para a cidade toda sorte de pessoas que sofriam nas mãos de gente impiedosa. Um grande refúgio para aqueles que precisam”

- E o dragão? – Perguntou um menino enquanto segurava a mão de seu namoradinho.


- Ah sim, o dragão... vive por aí completando algumas histórias mal contadas por uns covardes falastrões.


sexta-feira, 19 de agosto de 2016

O Julgamento (ou Carta XX)

Mulher sábia, anciã, mãe e mestra,
Você diminui a escuridão do céu e parteja o nascer do sol,
Possuidora de energia e sabedoria,
Criadora do movimento e do significado,
Dai-me da sua força, ensine-me sua sabedoria.
No seu grande caldeirão Awen,
Eu experimento sua magia e conheço seu poder,
Eu transformo minha forma e aprendo com seu conhecimento.
Assim, eu começo a minha busca e ouço a sua inspiração,
Para um novo começo, o fim e a inevitável morte,
Meu renascimento sendo guiado por você, Grande Cerridwen!


Ouviu ao longe a trombeta que indicava: Fim.

Era um boneco feito de estopa e recheado com palha. Diariamente a jovem bruxa acrescentava as experiências que estava vivendo, mas apenas as ruins; não estava entretanto, criando um receptáculo de sentimentos maus, muito pelo contrário, agradecia e mentalmente depositava aquilo que deveria no boneco. Por 7 anos foi como um mantra, todos os dias às 23 horas se encontrava com a pequena forma e nela acrescentava as dificuldades, as dores, as ansiedades e tudo aquilo que não queria que permanecesse nela – não queria que essas coisas represassem em si como água parada, que estraga e não segue o ciclo natural.
***
Ouviu batidas à sua porta, 3 batidas rápidas repetidas 3 vezes. Achou estranha a pressa de quem estava ali, mas se levantou rapidamente e a abriu com cuidado.

Viu um homem de idade se apoiando em uma madeira nodosa, que lhe servia de apoio quase como uma bengala; era encurvado, a corcunda não era tão saliente mas o suficiente para que fosse perceptiva; olhos negros e serenos, ao fitá-los a jovem pode jurar por instantes estar contemplando o infinito; suas vestes eram simples em tons de cinza, fazendo com que ela se lembrasse de aldeões de uma vila próxima.

- Bom dia senhor.

- Bom dia minha jovem, teria por acaso um copo de água para este velho senhor?

- Sim... entre.

Vagarosamente o velho caminhou para dentro da casa, e sem convite encostou sua bengala na parede e se sentou à mesa. Um pouco estranhada pela entrada do homem e a clara indiferença pela falta de convite para sentar-se, foi até a cozinha e encheu um copo com a água do jarro de barro. Levou até o velho e então viu um candeeiro sob sua mesa e se indagou de onde ele havia tirado o objeto.

Enquanto bebia a água, seus olhos permaneciam fixados na jovem, que começou a mexer as mãos para encontrar uma posição confortável diante do olhar fixo do velho. Ela não percebeu, mas ele sorria enquanto virava o copo.

- Gratidão minha jovem, uma moça que mata a sede de um velho recebe as bênçãos das Deusas.

Ao ouvir a frase a moça estranhou. Havia algum tempo que os adoradores dos antigos deuses eram perseguidos. Reteve-se em acenar com a cabeça e desejou que o homem fosse logo embora.

- Você tem se esforçado minha jovem. A sua busca não é em vão. – Levantou-se, pegou o candeeiro, a bengala e foi para a porta enquanto ela ficou em silêncio, agora com medo.

- Esteja pronta. – Com um sorriso benevolente, abriu a porta e partiu.

***

Era madrugada e uma luz de fogueira entrou repentinamente pela janela da casa. A jovem acordou assustada e teve medo que os aldeões estivessem à sua porta, prontos para levá-la a julgamento.
Respirou fundo, vestiu-se rapidamente e pegou o boneco de estopa e palha colocando no bolso de seu vestido. Sabia que fugir não era uma alternativa e dirigiu-se à porta em passos firmes, costas eretas e olhar determinado. Se fosse esse o momento, não iria morrer gritando ou pedindo clemência de quem não a possuía.

Abriu a porta.

Diante de si viu três mulheres, uma grávida, uma mais jovem do que ela, uma de idade avançada ao meio das outras duas. Em frente a elas, um caldeirão grande que fumegava sob uma fogueira. A bruxa sentia a presença de alguns animais por perto, mas não conseguia identificar quais eram.

- Seja bem-vinda. – Disseram as três ao mesmo tempo. Milhares de borboletas saíram do caldeirão e passaram a voar ao redor das 4 mulheres, criando a sensação de não estarem mais na frente da casa da bruxa. Maravilhada, ela entendeu o que estava para acontecer.

- Costurado com amor. – Disse a grávida

- Guardado com carinho. – Disse a mais jovem

- Depositada toda a dor. – Disse a mais velha

A bruxa deu alguns passos à frente e tirou o boneco do bolso – parou diante do caldeirão e o olhou para ele em suas mãos.

- O que ofereço é tudo o que tenho. – Ergueu o receptáculo – Ad astra per áspera.

- Até às estrelas, sob os espinhos. – Disseram as três.

A bruxa então deixou o boneco cair no caldeirão; as três mulheres seguraram juntas a colher que mexia o caldeirão e começaram movimentos circulares, revelando tanto dentro do caldeirão quanto na fumaça que dele saía, tudo aquilo que a bruxa havia depositado no receptáculo.

As borboletas passaram a voar em uma velocidade muito maior e a fumaça cercou a bruxa que passou a sentir tonturas. Sentiu seu corpo desfalecendo enquanto tentava manter um único pensamento: “Gratidão Cerridwen”.

***

Acordou em sua cama; ainda que sentisse um cheiro de fumaça em suas roupas, ainda que não houvesse mais o receptáculo, ainda que tivesse visto algumas borboletas dentro de sua casa, não tinha certeza se aquilo foi um sonho. Mas ainda que fosse um sonho, ela sabia que havia sido real.

Ouviu batidas à sua porta, 3 batidas rápidas repetidas 3 vezes. Achou estranha a pressa de quem estava ali, mas se levantou rapidamente e a abriu com cuidado.

O velho viu então uma jovem de olhos azuis e com profundidade tal como o mar e se sentiu enfeitiçado por algum momento; um rosto firme, expressão sem medo; segurava a porta e estava ali parada bloqueando a entrada; no alto ao seu lado, uma mariposa estava pousada na lamparina que balançava levemente ao vento.

- Bom dia senhor.

- Bom dia minha jovem, teria por acaso um copo de água para este velho senhor?

- Sim. Aguarde aqui.

Ao observar a porta se encostar enquanto esperava, o velho sorriu pela jovem bruxa.
Ao voltar a mulher trazia um jarro de barro em seus braços.

- Aqui, leve-o caso sinta mais sede.

- Gratidão minha jovem, uma moça que mata a sede de um velho recebe as bênçãos das Deusas.

- Ubi caritas et amor, Dea ibi est.

O velho lhe deu as costas e deu alguns passos com seu candeeiro balançado de um lado para o outro. 

Olhou para trás brevemente.

Sorriram um para o outro.




terça-feira, 16 de agosto de 2016

A Morte (ou Carta XIII)





Ouviu ao longe a trombeta que avisava: Fim.

Como pode um sentimento acabar por culpa de erros cometidos de formas tão grotescas? Como pode uma relação encontrar em seu fim uma forma de superar e se erguer? Os olhos ficam marejados, o estômago em um turbilhão de sensações (nenhuma boa), a boca em contradição com os olhos, mantém-se seca e as mãos ficam geladas.

A espada atravessa o abdômen do samurai que não grita, não geme. Apenas aceita que é aquele o momento de demonstrar sua força, sua coragem e sua honra. A dor lenta espalha-se por todo o seu corpo e o consome por inteiro. Mas ainda que as vísceras estejam à vista da plateia, ele não deve parar – assim recobrará aquilo que foi perdido. De um lado a outro, um corte profundo. Não tão diferente do que às vezes devemos fazer.

A Morte passa levemente sua mão pelo corpo estendido, enquanto o público começa a se dispersar. À sua vista a adaga ensanguentada enquanto que não tão longe, a família mantém-se impávida.

- Estou pronto – Disse o samurai.

- Um ato bonito de qualquer forma. Haverá um tempo que isso não mais será possível, mas as pessoas escolherão outras formas de fazê-lo. – Havia um ar de desinteresse em sua fala, quase desdém.

O samurai assentiu, sem saber do que a mulher falava.

- Não acha estranho como há tanta dor nos términos? Há um quê de sacrifício. Não entendem uma lei universal simples.

O homem manteve-se ereto enquanto ouvia, com uma expressão sem sentimentos.

- O fim deveria ser um jubilo. Sabe o que significa? O fim significa que quando a folha seca cai no chão ela servirá para o propósito de nascimento e crescimento de outra árvore. O ciclo sem fim a que todos que estão vivos permanecem presos.

- Diga-me, jovem alma, do que mais gostava quando era encarnado?

- Gostava do sol da manhã, quando me sentava à varanda de minha casa e sentia uma brisa calma e fria no rosto.

- Diga-me então, jovem alma, o que você imagina que ainda irá gostar quando voltar a ser encarnado?



terça-feira, 31 de maio de 2016

O Imperador (Ou Carta IV)

Imperador
Primeiro de seu Nome
O Grande Deus Sol
Conquistador de Reinos
Criador de Exércitos
Estrategista Supremo


Acordou às 5 da manhã. Tomou um banho rápido, café da manhã para ela e para a criança que iria para a escola dali a 2 horas. Pegou a filha menor, enrolou em um pano que passava pelo seu pescoço e mantinha a pequena segura, sentada ou deitada, próxima de seu peito. Cesta de salgados feitos no dia anterior, outra um pouco menor para os doces – colocava amor nos alimentos que preparava, pois conforme sua mãe ensinou, às vezes uma pessoa só precisa de algo feito com amor para começar o dia bem.

Foi para o ponto de ônibus, como todos os dias. Pegaria dois e chegaria à estação de metrô, com sorte venderia algo ainda no ônibus. Já no trem a situação seria um pouco diferente, não era permitido comercializar nada em seus vagões, mas uns conhecidos sempre compravam algo e assim outras pessoas que saíram apressadas de casa a iriam ver e pediriam também. Grande parte do que fizera para vender se esvaziava nesse trajeto e o restante venderia no centro. Todos os dias os mesmos caminhos.

Exceto naquele dia, em especial. Veio outro motorista, não o que fazia a linha habitualmente. Pediu, como sempre, para que abrisse as portas traseiras, já que teria dificuldade de passar com a criança pela catraca.

- Não posso abrir não senhora.

- Como assim não pode abrir?

- Não posso... – e começou a sair com o ônibus.

- ELA VAI PAGAR – Alguém já acostumado com sua presença no ônibus naquele horário gritou.

- Ah sim... – e abriu a porta.

Subiu, constrangida. Embora se sentisse mal, tinha que vender seus salgados e assim o fez, afinal, não havia nada de novo em um país racista.

Mas naquele dia havia sim.

Timidamente um homem se aproximou.

- Com licença... posso conversar com você?

- Sim claro. - disse com seu sorriso inabalável no rosto.

- Sou fotógrafo... trabalho com fotos de empoderamento e você... bem... você é linda com a criança nos braços.

- Obrigada. – Outro sorriso, novamente gentil.

- Poderia tirar uma foto sua?

- Sim, sem dúvidas. – e se preparou para a foto.

Sem saber, que ali, em um assento de ônibus, com duas cestas e uma criança no colo e como tantas outras mães negras que saem pela manhã para conquistar o sustento para seus filhos e ganhar a vida honestamente, invocava figura indomável de um Imperador.

O assento? Seu trono.

Suas crianças? Seu reino.

Suas cestas? Seu cetro

Seu cabelo crespo? Sua coroa.

E nunca, motorista algum, iria fazer com que ela se sentisse menor. Pois não era.
Sua alma é imensa, maior que este país.



*Conto baseado em fatos reais.

terça-feira, 24 de maio de 2016

A Justiça, Ou Carta VIII



Ergueu-se do chão, embainhou a espada. Logo mais uma luta se aproximaria e estava cansado. Passou os dedos no bigode espesso, ergueu os olhos para a imponente estátua diante de si. Diziam que protege a todos que assim o merecem e diante desses anos de guerras, pedir por mais uma proteção poderia de alguma forma pesar demais. Com olhos de uma criança inocente e meio sorriso no rosto, disse: 

- Uma vez mais, Grande Dama. Abençoe este guerreiro para o que tenha que acontecer. 

Vestiu-se com armadura, elmo e pegou o escudo. Montou seu cavalo e foi para o campo de batalha.

* * *

Entregou seus sentimentos sem medo, talvez uma atitude um pouco provocada pelo Louco, com a força de um Carro. Mas o fez. E agora pedia clemência e suspirava por uma luz no fim do túnel que demonstrasse a ela que não tinha feito errado. Acendeu um cigarro, depois outro e outro. No quarto, o celular vibrou. Mensagem da operadora. Assim, iria para a quinta vez que usaria o isqueiro. Estava particularmente bonita naquele dia, um vestido que ia um pouco acima do joelho, vermelho é claro, meias finas pretas, bota de cano curto e um lenço que por vezes funcionava como xale. E ainda não sabia o que diria, se diria e por onde começaria. Ele entrou apressado, com certa urgência no andar, talvez por estar atrasado. Sentou-se a mesa e a olhou no fundo de seus olhos castanhos. 

* * *
Lutou com todas as forças pelo cargo, fez tudo o que podia e algumas coisas que não podia. Deixou de lado sua vida social (algo que pensava não ser mais necessário desde o término da faculdade), terminou relacionamentos, não visitou os parentes por algum tempo. Dedicação total. Mas ainda sentia que não teria como alcançar o que desejava. Motivos? Nenhum aparente, talvez fosse a política e o jogo dos poderes dentro da empresa. Pensou em vários momentos em desistir. Talvez assim pudesse recuperar o tempo perdido dentro do escritório – muito embora, não se sentisse confortável em dizer que o tempo foi, de fato, perdido. Fez algumas amizades, ampliou a quantidade e a qualidade de seus contatos e isso por si só já deveria ter valido a pena. Talvez.

* * *

- E daí? 

- Bem... o guerreiro morreu. Era velho demais para mais uma batalha e assim, por mais que tentasse não poderia sobreviver. 

- O que há de justo nisso? 

- Ergueram uma estátua dele na praça principal da cidade e todos contavam suas façanhas e as crianças fingiam ser o homem enquanto brincavam. A Justiça pesa todas as ações, pesa tudo o que é favorável e o que não é, e oferece aquilo que lhe é por direito. 

- Sei... e a mulher? 

- O namoro acabou. Mas não que fosse sua própria culpa, mas como permanecer em algo que foi negligenciado pelo seu parceiro? Em um primeiro momento, a situação se configura ruim para ela, mas quem estava colhendo os frutos mal plantados era ele. A Justiça pesa todas as ações, pesa tudo o que é favorável e o que não é, e oferece aquilo que lhe é por direito. 

- Hum... é... meio estranho. 

- O homem, ele não conseguiu o cargo por mais que tivesse se esforçado. Mas foi chamado por outro setor, onde cresceu muito mais se valendo dos conhecimentos adquiridos anteriormente. A Justiça pesa todas as ações, pesa tudo o que é favorável e o que não é, e oferece aquilo que lhe é por direito. 

- Não entendi, eles parecem que se deram mal, mesmo tentando fazer o certo. 

- Você entenderá... - Ofereceu mais uma xícara de chá, enquanto olhava para o jogo aberto.

E solene, a Justiça encontrava-se no centro da mesa.



terça-feira, 3 de maio de 2016

A Estrela (Ou Carta XVII)



A torre cai impiedosa. Aqueles que estão dentro são lançados para fora arrebatadoramente e não há mais teto ou parede para se proteger, não há mais bases sólidas para se manter. O destino cármico bate à porta e sem aviso a abre, escancara, destrói. Ficam para trás apenas destroços. 

E nossos jovens heróis, jogados ao tempo e à própria sorte, em total revelia à sua vontade? Sentem a grama fresca sob suas mãos, quando se apoiam e olham para a lua, que paira solene sob suas cabeças. Embora perene e de brilho intenso, a lua cheia não é a única a se mostrar a eles. Sob um céu estrelado, recordam-se de uma estrela em especial que a partir de um local distante, guiou grandes reis magos em uma peregrinação.

E ali está ela novamente, e como em um passe de mágica a lua escurece. Seu desaparecimento traria trevas e caminhos distorcidos, frutos de uma visão pouco acostumada à escuridão. Traria, se não existisse o astro luminoso com outros sete astros brilhantes ao seu redor. Abaixando os olhos, os heróis veem uma figura feminina nua, com um jarro que verte água infinita. Seu olhar, negro como a noite e com pequenos pontos brilhantes, acalenta seus corações e onde havia desespero pela derrocada, transforma-se em plena luz. 

“Sou Pandora, que abre a caixa e liberta a esperança. Sou Héspero, a Estrela Vespertina. Sou Eósfero, A Estrela da Manhã. Sou Astreus, Senhor das Estrelas. Sou a Cura e a Certeza. Sou aquela que derrama as águas da criação sob a terra. Vinde a mim e deixai os destroços daquilo que já não faz parte de vós.” 

Tiraram o elmo. Abandonaram a espada e o escudo. Despiram-se da armadura. Seguiram nus em sua direção.



terça-feira, 5 de abril de 2016

O Sol ( Ou Carta XIX)

POEMA AO SOL

Sol que me ilumina a face
E me silencia a dor.
Sol que encanta os olhos
Sol que dá vida a flor.

Sol que me faz voar
Nas plumas dos seus raios.
Sol que pronuncia risonho
Um poema de abraçar.

Sol que desperta a vida
No cantar dos pássaros,
No arrastar da brisa.

Sol que me traz a calma
Abraça-me com sua luz
E da-me paz a alma.

TiaoNascimento
(http://www.tiaonascimento.prosaeverso.net/visualizar.php?idt=421128)



O rio corria limpo aos seus pés. Deitou-se para esticar a coluna e arrumou o óculos que insistia em cair quando estava suando. Mexeu os dedos dos pés embaixo da água enquanto abria os braços e sentia o calor do sol o tocando.

- Céu azul, você percebeu? – Perguntou o humanoide.

- Sim, dia maravilhoso. – Respondeu o rapaz.

- Já fez o que tinha de fazer?

- Sim, tudo.

- Limpou o espelho?

- Até mesmo devolvi para sua dona.

- Alimentou os lobos?

- São cães. Se eu der mais comida irão engordar.

- Limpou a casa?

- Está cheirosa.

- Então é tempo de deitar e deixar o sol te aquecer?

- É passada da hora.

- Posso então tocar uma melodia?

- Claro meu amigo.

O sátiro tirou a flauta do bolso e colocou-se a tocar a história de um antigo deus que venceu um dragão e dele obteve um oráculo. Este mesmo deus viveu outras grandiosas histórias e por vezes sofria por desdenhar de outros deuses, como quando o vento matou por inveja, o seu mais belo e estimado amor.

- Arcos, flechas, conquistas, amores. Uma bela música.

- Tragédias, algumas tragédias... principalmente quando seus amores foram todos tirados dele.

- E não perdeu seu brilho.

- O deus sol nunca perde. Aliás, daqui, virando um pouco a cabeça de lado... talvez seja só o sol a pino... ou a sombra próxima da cerejeira, mas como ela não recai sobre você, imagino que não seja isso também. Meu velho amigo, que luz apagada é essa?

Virou a cabeça para o fauno, suspirou.

- Tédio.

- Então coloque agora a se levantar, vá buscar o arco, vá caçar.

- Hoje não Agreevos.

O sátiro se silenciou e olhou para as folhas da cerejeira que balançavam levemente com a brisa.

- Há um rapaz, muito belo, que se banha no lago de baixo. Lá perto onde tem tantas daquelas flores... como se chamam?

- Jacinto.

- Sim, este é o nome dele. Por que não vamos dar uma volta por lá?

- É mesmo bonito? Vale a pena a caminhada?

- Por fora posso afirmar.

Levantaram-se e foram. Desceram a trilha e caminharam por uma vegetação aberta que permitia alguns raios de sol passarem por suas folhagens, encontraram alguns frutos suculentos e se divertiram fazendo o jogo da verdade, em que cada um conta uma história de si mesmo e o outro deve adivinhar se é verdade ou mentira.

Chegaram a um ponto da trilha que era possível ver o lago logo abaixo. E nele, um jovem nadava nu, com a pele morena sendo tocada pelo sol e pela água. Afundava, dava braçadas, se deliciava naquele dia quente.

- Bonito mesmo.

- Vá até lá, entre na água.

- Não, você é louco? Vou assustá-lo.

- Você também tem seus atributos, embora beleza não seja o mais enaltecido deles.

Riram um para o outro e o rapaz escutou uma voz alta.

- Quem está aí? – Falou alto em certo tom tenso. O sátiro empurrou o rapaz que quase rolou barranco abaixo até chegar ao lago. Por reflexo, segurou um galho de árvore.

- Ahm... desculpe incomodá-lo... estava vindo para o lago e bem... não sabia que tinha alguém aqui.

- Ah sim, eu já estou saindo... fique a vontade.

- Não se preocupe... venho outra hora.

O rapaz do lago fingiu não ouvir e embora fosse contar mais tarde sobre a vergonha de estar nu, naquele momento o outro jamais poderia imaginar.

Às margens do lago, estenderam as mãos e se cumprimentaram.

- Venho todos os dias por esse horário... se quiser podemos... – percebeu que não tinha com o que completar a frase.

- Sim, podemos... tentarei vir amanhã. – Respondeu rapidamente o outro.

Jacinto partiu rápido, talvez pela sensação de vergonha.

O sátiro que fez um balanço com cipós e magia, tocou mais uma vez a flauta, fazendo o amigo lhe olhar com um sorriso.

- Obrigado.

- Hora, vejamos só se não temos um novo brilho aqui? Bem quente por sinal.


Riram.