A língua é afiada como uma adaga, se não notar, ela o cortará.
O pensamento é rápido como o vento, não se prepare ele
o carregará.
Não aparenta emoções, os olhos vidrados enxergam
apenas o seu objetivo.
Move-se apenas em frente, atravessando tudo em seu
caminho,
Não atropela ou empurra, passa por entre os
obstáculos,
Os fracos e os sem estrutura vão ao chão, não
resistindo à força avassaladora tal qual tempestade.
Brande orgulhosamente sua espada, a empunhadura é
entalhada com o seu conhecimento e a lâmina forjada pela experiência.
Alguns diriam que se trata de um homem capaz de tudo
para possuir o que quer.
Outros dirão que é frio e calculista, um homem maduro,
de lábia.
Ele mesmo considera-se uma pessoa maldosa,
Mas talvez seja porque acredita demais que exista o
certo e o errado, e que nem sempre o que precisa ser dito ou feito julga
correto.
Há aqueles que assim como eu observa em admiração,
Contempla sem julgamentos a trilha que o guia, a
motivação que o carrega e as conquistas que consegue.
O Príncipe de Gládios é coroado Rei, agora precisa de
castelo e terras.
Sem olhar para trás, acena aos companheiros de tantas
batalhas, como que em agradecimento.
Monta em seu cavalo, saca sua espada e cavalga rumo ao
desconhecido,
Com a única certeza de que será bem sucedido.
-
Contos da Jornada da Conquista, A dança das Lâminas - Introdução.
***
(16) A
última visita
Caminhava com passos firmes em direção à tenda, apesar
da convicção, era possível perceber uma certa incerteza em seu semblante, algo
não estava certo. Ele não era das pessoas mais abertas que conheci, na verdade,
por medo de que as emoções entrassem no caminho de seus objetivos as mantinha guardadas em algum lugar de sua mente e não de seu coração, reservava elas para
aqueles que julgava merecedores. Ao por-se para dentro arrumou um velho
encantamento dependurado ao lado da entrada.
“Você sabia que é de mal gosto manter amuletos de
repulsão ao lado da entrada ao receber visitas?”
“Eu vou jogar essa velharia fora”
“Finalmente” replicou rindo.
“Ele nunca funciona, você continua entrando”
Riram juntos.
“Eu vou partir velha amiga, vim à sua tenda pedir um
último conselho às cartas” – lançou um meio sorriso e continuou como quem
estivesse à se explicar – “Não há mais nada nessas terras para conquistar, toda
justiça que eu poderia fazer já foi feita e aquelas que não posso corrigir me
corrõem, sinto-me como um carvalho em um pequeno vaso.”
“Entendo”
Saquei as cartas enquanto ouvia suas dúvidas e
expectativas, ao final disse que havia sido nomeado rei, porém para isso seria
necessário conquistar um novo território, terras vizinhas porém desconhecidas.
“Parabéns pela nomeação, vejo que seu futuro será
brilhante, entretanto a conquista será árdua,
os obstáculos que você não transpassou aqui serão os mesmo lá, as
amarguras serão as mesmas, é como dizem, muda o teatro, mudam os personagens,
porém o enredo será o mesmo. A vida tem um jeito irônico de nos obrigar a
aprender as liçoes às quais fugimos”
“Não me contou novidade alguma bruxa”
“Claro que não, se bem te conheço não é possível haver
algo em que você não tenha pensado. Mas lembre-se: a lealdade de amigos ainda
não foi conquistada, cuidado pois há aqueles que não veem com bons olhos um
novo rei de gládios”
“Obrigado pelo conselho” - levantou-se rapidamente
ajeitando a espada, sem jeito não sabia exatamente como se despedir.
Foi em minha direção como se fosse beijar meu rosto. Resistiu. Assenti. Não havia necessidade, não para ele. Não para o Rei de Espadas.
- Contos da Jornada da Conquista, A dança das Lâminas - Epílogo.
Obrigado Bruxa, sempre nos auxiliando com suas cartas e sua magia sutil.
Apertou a tecla. Uma, duas, três
vezes. Respirou fundo e tentou pensar se havia alguma forma de arrumar. “Deve ter”, pensou. Desmontou o teclado,
tirou o cabo que ligava ao notebook. Assoprou, cutucou a tecla com um palito de
dente. Percebeu um grampo de cabelo caído no chão, ao lado do sofá – não havia
mulheres na casa e um grampo de cabelo ali era bem estranho, mas quem sabe
pudesse servir para alguma coisa. Usou o grampo e voltou a cutucar.
Nada.
Decidiu que não iria desanimar,
tentou limpar mais um pouco e soltou uma borrachinha que havia logo abaixo da
tecla, tentou limpar mais um pouco. Assoprou e percebeu um pelo branco
(provavelmente do seu gato), tirou ele dali com certa dificuldade e ligou o
teclado novamente e foi pegar um copo de água enquanto a máquina reiniciava.
Não funcionou. Apertou mais algumas vezes a tecla, tentou fazer a letra sair,
sem sucesso algum.
“A letra ‘d’”, pensou, “’d’ de desespero”, sorriu ao pensar
isso. Lembrou-se de uma conversa mais cedo: “Desafio”
seu amigo havia lhe dito mais cedo em uma conversa sobre o tarot,
especificamente a carta Enforcado. Sorriu ao pensar nisso. Já havia tentado
escrever sobre ele... embora tivesse uma certa dificuldade. Entender como ele
funcionava e de que maneira poderia ser positivo o havia impulsionado em uma
pesquisa pela internet, mas era complicado entender toda a sua nuance lendo as
interpretações que outras pessoas davam.
Exceto talvez pelo desafio.
Talvez fosse a melhor definição.
Colocou o notebook de volta no
lugar, deitou-se no sofá e escolheu alguma música lenta em seu celular (o que
particularmente não era difícil de encontrar). Respirou fundo e imaginou o
Enforcado em sua frente, pendurado em uma árvore com uma leve brisa a balançar
seus ondulados cabelos. Olhou para ele e tentou decifrar o que poderia lhe
entregar de mensagem, mas tudo o que sentia era a sensação de prisão. Ainda na
imaginação, sentou-se na grama e ficou a contemplar, até que percebeu a auréola
ao redor da cabeça dele, o rosto sereno e os olhos fechados, enquanto permanecia
imóvel. O mundo para ele estava de cabeça para baixo, mas o sangue do seu corpo
não descia para a cabeça e não havia desespero para sair da posição. Calmaria.
Era uma vez em uma torre distante, em um reino muito
próspero, uma belíssima imperatriz. Sua gentileza era sua espada, seu sorriso o
seu escudo. Um dia entretanto, o seu querido Imperador decidiu partir para
nunca mais voltar – não queria mais permanecer preso em um castelo enquanto
havia um mundo todo a ser explorado, um pássaro não deseja a gaiola.
A Imperatriz então chorou quando o viu subir no corcel e em
uma cavalgada rápida entrou na floresta, sem em momento algum olhar para trás.
Pelos próximos dias, sem que ela quisesse ou alguém que os
impedisse, cavaleiros de todos os reinos adjacentes vieram cortejá-la. Dezenas
deles, que se amontoavam durante o almoço e tentavam desmerecer uns aos outros,
gritando e esbravejando conquistas. A Imperatriz ouviu uma das serviçais dizer
“parecem pavões agindo como hienas” e
então percebeu o quanto aquilo tudo era cansativo e precisava de uma solução –
ao menos antes que destruíssem o castelo.
Lembrou-se de uma velha amiga que morava em uma caverna não
tão longe. A Imperatriz impediu que ela fosse morta pela fúria dos moradores da
vila e então ela lhe devia um favor. Decidiu cobrá-la.
Organizou uma comitiva pequena e colocou-se a subir pelo
rochedo até a caverna. O caminho era cheio de pedras, por duas vezes um dos membros
perguntou à Imperatriz se era necessário correr esse risco. “Se fosse o Imperador aqui ele não
insistiria na pergunta”, medo da segurança de sua senhora, ele lhe disse.
Pensou que fosse melhor ignorar.
Ao chegar no fim da subida, uma caverna de entrada estreita
que admitia apenas uma pessoa por vez e de cabeça abaixada. Ao olhar de fora
para dentro da caverna, via-se um ponto brilhante que se movimentava de um lado
para o outro rapidamente. A Imperatriz então tirou o capuz em sinal de respeito
e entrou.
- Veja bem, uma ilustre visitante.
Cumprimentou a pequena criatura como as damas faziam.
- Narbe, faz um bom tempo. – Virou-se e pegou um pequeno
embrulho das mãos de um dos serviçais. – Um pequeno presente.
A fadinha voou satisfeita e excitada, foi até o embrulho e
retirou um minúsculo pedaço de pano,
todo trabalhado em fios finíssimos de ouro e com pedrinhas brilhantes por todos
os lados.
- Magnífico! A espera pela sua volta até que não foi em vão
não é? – E jogou nos ombros, ao redor do pescoço.
- Venho trazer um pedido minha velha amiga.
- Nada que envolva sangue ou dragões espero...
A Imperatriz sorriu nervosa.
***
Narbe sobrevoou o vilarejo, os
que a viram gritaram e correram em desespero. O pânico se instalou nos corações
das pessoas e alguns partiram em disparada na direção da floresta. A Imperatriz
surgiu no portão do castelo caminhou firme e calmamente até o centro da vila.
Narbe pousou atrás dela e rugiu.
- Não temam população de
Somewhere, ela está aqui para nos defender dos usurpadores e mentirosos que
desejam o trono.
Aos poucos as pessoas foram se
acalmando, enquanto que os bravos cavaleiros saíram do castelo com espadas em
punho, alguns em cavalos, outros correndo aos gritos (a maioria corria e
gritava, mas na direção oposta ao dragão).
Um rugido maior, o fogo os
atingia e então em um suspiro, já não eram ameaça.
***
“Há uma história sobre uma Imperatriz que vive em uma cidade nem tão
distante daqui. Dizem que seu coração foi estilhaçado pelo homem que a amava e
isso a levou a atrair um grande dragão que passou a amá-la e protege-la. Dizem
que o dragão em todo o seu poder destruiu os mais valentes cavaleiros dos
reinos ao redor. Havia sangue, fogo e destruição e as pessoas amedrontadas
fugiram da cidade e hoje a Imperatriz vive só, com seu dragão como companhia, à
espera de um salvador.”
Amarílis ouviu atentamente,
enquanto amamentava seu filho. Como não era sempre que um trovador passava por
aqueles lados, quando algum chegava tudo acabava em festa e bebedeira. Seu
marido não permitia que ela ficasse nas festas que se seguiam, mas ela se
impunha e deixava claro que ninguém lhe diria o que fazer e nesse dia era a
única em meio aos homens ao ouvir a história.
- Deve ter mais teia de aranha
que lá em casa! – Gritou um dos homens e todos riram enquanto o trovador
bebericava um pouco mais sem esboçar nenhum sorriso de escárnio.
Ele se levantou para pedir um
pouco mais de vinho e Amarílis se aproximou rapidamente, antes que algum bêbado
tomasse a atenção novamente do homem.
- É real? Digo, a história é
real?
- E se for? – Olhou a mulher de
cima a baixo.
- Se for, você disse que as
pessoas da vila fugiram e que ele matou apenas os cavaleiros. Ora, ele não é um
perigo para ela, não precisa de um salvador.
- Tem razão milady, mas não
estava falando de um salvador que matasse o dragão, mas sim que a salvasse dela
mesma. – Saiu cambaleando.
Pensou um pouco, cobriu o filho e
foi para casa. Esquentou a água para as crianças tomarem banho, aprontou as
refeições. Depois que foram dormir fez bolo e pão para que comessem no outro
dia. Seu marido entrou cambaleando, caiu dormindo na cama e escorregou para o
chão. Deixou tudo pronto e foi deitar.
Ao amanhecer, Amarílis já estava
de pé e esperava montada em um cavalo próxima à estrada que levava para uma das
cidades grandes próximas. Não tardou para o trovador aparecer preparado para
partir da vila.
- Homem, para que lado fica a
cidade da Imperatriz?
Ele a olhou de novo de cima a
baixo e percebeu que qualquer palavra que dissesse seria rebatida. Imaginou a
mulher o seguindo e espalhando-se a fama de que ele era ladrão de esposas. Já
não bastava combater a fama de covarde quando fugiu do dragão, não precisava de
mais uma – gostava muito dos pãezinhos quentinhos e do vinho e essa mulher que
aparentava ser louca não iria tirar isso dele.
- Norte, até a Floresta que Fala.
À esquerda, depois acompanhe o rio. – Bateu os calcanhares com força no cavalo
e correu dali.
Voltou-se para o norte, iria
passar novamente perto de sua casa e talvez parasse para ver se estava tudo
bem, depois seguiria viagem. À medida que voltava lentamente para casa foi se
sentindo mal pelos seus filhos que ficariam ali com aquele homem semi selvagem,
começou a pensar se não era melhor abandonar a ideia de ir embora, suspirou.
Quando avistou sua casa, viu o
homem com quem se casara jogar seu filho mais velho para fora da casa, e aos
berros perguntava sobre ela, onde estava e acusava o menino de estar protegendo
a mãe. Caído no chão, chorando em desespero a criança tentava dizer algo que
era abafado pela irmã que gritava desesperada e em meio à confusão, o menino de
colo também começou a chorar.
O homem pegou o machado e foi se
aproximando do menino, enquanto os vizinhos saíam da casa e observavam a
bagunça se instaurando. O homem dizia, mais para as pessoas ao redor do que
para a criança, que iria fazer com que ele se tornasse um homem ao invés de
ficar protegendo mulheres que não mereciam. Amarílis desceu do cavalo e pegou a
espada que era de seu pai e foi correndo na direção dos dois. Aos berros o
homem disse:
- Vou te ensinar a não ser uma
maricas que fica embaixo da saia da mãe. – Ergueu o machado.
Um grito agudo de dor, e o homem
caiu de joelhos no chão, atrás de si o machado caído e próximo à ele, suas duas
mãos inertes. Continuava a gritar, mas não se sabia se por dor ou por desespero
ao ver o cotoco que dava lugar às mãos.
Rapidamente Amarílis pegou os
filhos, algumas roupas e amarrou a carroça ao cavalo: sabia o que estava por
vir, os homens da vila iriam matá-la para que servisse de exemplo. Partiram com
pressa para o norte.
***
Pararam para descansar na
Floresta que fala, acendeu a fogueira depois de muito esforço e deu um pouco de
comida para as crianças enquanto pensava de que forma iria conseguir mais.
- Meninos... a mamãe vai
descansar um pouco, apenas um pouquinho, fiquem por perto está bem? – Abraçou o
menino de colo e fechou os olhos.
Não percebeu quanto tempo havia
passado, e se assustou com um rugido alto; um fogo alto que atravessava as
árvores a fez olhar na direção que provavelmente o dragão estava e ouviu o
grito de sua filha. Correu pelo mato até ela, tomando o devido cuidado para não
machucar a criança no colo e a abraçou com força, enquanto encarava o dragão e
a provável morte que viria a seguir.
A menina, embora com muito medo e
com a cabeça enfiada em meio aos cabelos da mãe, estendeu sua mãozinha com as
flores que havia pego pela floresta. E cheiravam tão bem!
Narbe paralisou diante da cena.
Não havia nada sobre matar crianças que lhe oferecessem flores no trato feito
com a Imperatriz. Bem, então que assim fosse feito.
Voltou para a forma de fada.
- Ahn... perdão, essa doce
garotinha me assustou!
Sem entender, Amarílis se
surpreendeu com a pequena.
- Vocês precisam de algo?
Tentando se recobrar do susto, a
única coisa que conseguiu dizer foi: “Comida.”
Narbe então começou a tagarelar
enquanto mostrava um caminho para a família seguir e ao perceber que não
estavam logo atrás e pareciam catatônicos, disse com as mãos na cintura: ”Estão ou não com fome?”
O garoto que estava no mato observando
veio junto à mãe e aos irmãos e passaram a seguir a fadinha que falava sobre
diversas coisas, em tom alegre e radiante. Ouvi-la trazia a mesma sensação de
sentir o sol matutino tocar a pele.
Passaram por uma cidade
abandonada, e seguiram rua à cima na direção do castelo.
A fada abriu as portas e ali,
sentada ao trono, a Imperatriz mantinha-se com um rosto triste. Amarílis fez
uma referência que não foi notada, enquanto Narbe dizia algo sobre procurar o
que comer.
***
Os dias foram passando, a doçura das
crianças foi quebrando a tristeza em que a Imperatriz havia decidido para si.
Amarílis cuidou do castelo como pode, mantendo a ordem e limpeza ao menos nos
cômodos que mais usavam.
Lentamente a Imperatriz passou a
sorrir, enquanto que cada vez menos Narbe ficava na forma de dragão sobrevoando
as redondezas.
Se sentia feliz ao ver como a
Imperatriz agia perto de Amarílis e foi percebendo que algo estava acontecendo.
Sentia uma pontada de felicidade e ao mesmo tempo tristeza... em breve iria
partir.
***
“Há uma história sobre uma Imperatriz que vive em uma cidade nem tão
distante daqui. Dizem que seu coração foi estilhaçado pelo homem que a amava e
isso a levou a atrair um grande dragão que passou a amá-la e protege-la. Dizem
que o dragão em todo o seu poder destruiu os mais valentes cavaleiros dos
reinos ao redor. Havia sangue, fogo e destruição e as pessoas amedrontadas
fugiram da cidade, e por muito tempo a Imperatriz viveu só.
Mas um dia uma mulher chegou com três crianças de grande poder e contra
essa família o dragão nada pode. Foi um grande alvoroço quando elas decidiram
por um casamento, atraindo para a cidade toda sorte de pessoas que sofriam nas
mãos de gente impiedosa. Um grande refúgio para aqueles que precisam”
- E o dragão? – Perguntou um
menino enquanto segurava a mão de seu namoradinho.
- Ah sim, o dragão... vive por aí
completando algumas histórias mal contadas por uns covardes falastrões.
Você diminui a escuridão do céu e parteja o
nascer do sol,
Possuidora de energia e sabedoria,
Criadora do movimento e do significado,
Dai-me da sua força, ensine-me sua sabedoria.
No seu grande caldeirão Awen,
Eu experimento sua magia e conheço seu poder,
Eu transformo minha forma e aprendo com seu conhecimento.
Assim, eu começo a minha busca e ouço a sua inspiração,
Para um novo começo, o fim e a inevitável morte,
Meu
renascimento sendo guiado por você, Grande Cerridwen!
Ouviu ao longe a trombeta que indicava: Fim.
Era um boneco feito de estopa e recheado com palha. Diariamente
a jovem bruxa acrescentava as experiências que estava vivendo, mas apenas as
ruins; não estava entretanto, criando um receptáculo de sentimentos maus, muito
pelo contrário, agradecia e mentalmente depositava aquilo que deveria no
boneco. Por 7 anos foi como um mantra, todos os dias às 23 horas se encontrava
com a pequena forma e nela acrescentava as dificuldades, as dores, as
ansiedades e tudo aquilo que não queria que permanecesse nela – não queria que
essas coisas represassem em si como água parada, que estraga e não segue o
ciclo natural.
***
Ouviu batidas à sua porta, 3 batidas rápidas repetidas 3
vezes. Achou estranha a pressa de quem estava ali, mas se levantou rapidamente
e a abriu com cuidado.
Viu um homem de idade se apoiando em uma madeira nodosa, que
lhe servia de apoio quase como uma bengala; era encurvado, a corcunda não era
tão saliente mas o suficiente para que fosse perceptiva; olhos negros e
serenos, ao fitá-los a jovem pode jurar por instantes estar contemplando o
infinito; suas vestes eram simples em tons de cinza, fazendo com que ela se
lembrasse de aldeões de uma vila próxima.
- Bom dia senhor.
- Bom dia minha jovem, teria por acaso um copo de água para
este velho senhor?
- Sim... entre.
Vagarosamente o velho caminhou para dentro da casa, e sem
convite encostou sua bengala na parede e se sentou à mesa. Um pouco estranhada
pela entrada do homem e a clara indiferença pela falta de convite para sentar-se,
foi até a cozinha e encheu um copo com a água do jarro de barro. Levou até o
velho e então viu um candeeiro sob sua mesa e se indagou de onde ele havia
tirado o objeto.
Enquanto bebia a água, seus olhos permaneciam fixados na
jovem, que começou a mexer as mãos para encontrar uma posição confortável
diante do olhar fixo do velho. Ela não percebeu, mas ele sorria enquanto virava
o copo.
- Gratidão minha jovem, uma moça que mata a sede de um velho
recebe as bênçãos das Deusas.
Ao ouvir a frase a moça estranhou. Havia algum tempo que os
adoradores dos antigos deuses eram perseguidos. Reteve-se em acenar com a
cabeça e desejou que o homem fosse logo embora.
- Você tem se esforçado minha jovem. A sua busca não é em
vão. – Levantou-se, pegou o candeeiro, a bengala e foi para a porta enquanto
ela ficou em silêncio, agora com medo.
- Esteja pronta. – Com um sorriso benevolente, abriu a porta
e partiu.
***
Era madrugada e uma luz de
fogueira entrou repentinamente pela janela da casa. A jovem acordou assustada e
teve medo que os aldeões estivessem à sua porta, prontos para levá-la a
julgamento.
Respirou fundo, vestiu-se
rapidamente e pegou o boneco de estopa e palha colocando no bolso de seu
vestido. Sabia que fugir não era uma alternativa e dirigiu-se à porta em passos
firmes, costas eretas e olhar determinado. Se fosse esse o momento, não iria
morrer gritando ou pedindo clemência de quem não a possuía.
Abriu a porta.
Diante de si viu três mulheres,
uma grávida, uma mais jovem do que ela, uma de idade avançada ao meio das
outras duas. Em frente a elas, um caldeirão grande que fumegava sob uma
fogueira. A bruxa sentia a presença de alguns animais por perto, mas não
conseguia identificar quais eram.
- Seja bem-vinda. – Disseram as
três ao mesmo tempo. Milhares de borboletas saíram do caldeirão e passaram a
voar ao redor das 4 mulheres, criando a sensação de não estarem mais na frente
da casa da bruxa. Maravilhada, ela entendeu o que estava para acontecer.
- Costurado com amor. – Disse a
grávida
- Guardado com carinho. – Disse a
mais jovem
- Depositada toda a dor. – Disse a
mais velha
A bruxa deu alguns passos à
frente e tirou o boneco do bolso – parou diante do caldeirão e o olhou para ele
em suas mãos.
- O que ofereço é tudo o que
tenho. – Ergueu o receptáculo – Ad astra
per áspera.
- Até às estrelas, sob os
espinhos. – Disseram as três.
A bruxa então deixou o boneco
cair no caldeirão; as três mulheres seguraram juntas a colher que mexia o
caldeirão e começaram movimentos circulares, revelando tanto dentro do
caldeirão quanto na fumaça que dele saía, tudo aquilo que a bruxa havia
depositado no receptáculo.
As borboletas passaram a voar em
uma velocidade muito maior e a fumaça cercou a bruxa que passou a sentir
tonturas. Sentiu seu corpo desfalecendo enquanto tentava manter um único
pensamento: “Gratidão Cerridwen”.
***
Acordou em sua cama; ainda que
sentisse um cheiro de fumaça em suas roupas, ainda que não houvesse mais o
receptáculo, ainda que tivesse visto algumas borboletas dentro de sua casa, não
tinha certeza se aquilo foi um sonho. Mas ainda que fosse um sonho, ela sabia
que havia sido real.
Ouviu batidas à sua porta, 3 batidas rápidas repetidas 3
vezes. Achou estranha a pressa de quem estava ali, mas se levantou rapidamente
e a abriu com cuidado.
O velho viu então uma jovem de olhos azuis e com
profundidade tal como o mar e se sentiu enfeitiçado por algum momento; um rosto
firme, expressão sem medo; segurava a porta e estava ali parada bloqueando a
entrada; no alto ao seu lado, uma mariposa estava pousada na lamparina que
balançava levemente ao vento.
- Bom dia senhor.
- Bom dia minha jovem, teria por acaso um copo de água para
este velho senhor?
- Sim. Aguarde aqui.
Ao observar a porta se encostar enquanto esperava, o velho
sorriu pela jovem bruxa.
Ao voltar a mulher trazia um jarro de barro em seus braços.
- Aqui, leve-o caso sinta mais sede.
- Gratidão minha jovem, uma moça que mata a sede de um velho
recebe as bênçãos das Deusas.
- Ubi caritas et amor, Dea ibi est.
O velho lhe deu as costas e deu
alguns passos com seu candeeiro balançado de um lado para o outro.
Como pode um sentimento acabar por culpa de erros cometidos
de formas tão grotescas? Como pode uma relação encontrar em seu fim uma forma
de superar e se erguer? Os olhos ficam marejados, o estômago em um turbilhão de
sensações (nenhuma boa), a boca em contradição com os olhos, mantém-se seca e
as mãos ficam geladas.
A espada atravessa o abdômen do samurai que não grita, não
geme. Apenas aceita que é aquele o momento de demonstrar sua força, sua coragem
e sua honra. A dor lenta espalha-se por todo o seu corpo e o consome por
inteiro. Mas ainda que as vísceras estejam à vista da plateia, ele não deve
parar – assim recobrará aquilo que foi perdido. De um lado a outro, um corte
profundo. Não tão diferente do que às vezes devemos fazer.
A Morte passa levemente sua mão pelo corpo estendido,
enquanto o público começa a se dispersar. À sua vista a adaga ensanguentada
enquanto que não tão longe, a família mantém-se impávida.
- Estou pronto – Disse o samurai.
- Um ato bonito de qualquer forma. Haverá um tempo que isso
não mais será possível, mas as pessoas escolherão outras formas de fazê-lo. –
Havia um ar de desinteresse em sua fala, quase desdém.
O samurai assentiu, sem saber do que a mulher falava.
- Não acha estranho como há tanta dor nos términos? Há um
quê de sacrifício. Não entendem uma lei universal simples.
O homem manteve-se ereto enquanto ouvia, com uma expressão
sem sentimentos.
- O fim deveria ser um jubilo. Sabe o que significa? O fim
significa que quando a folha seca cai no chão ela servirá para o propósito de
nascimento e crescimento de outra árvore. O ciclo sem fim a que todos que estão
vivos permanecem presos.
- Diga-me, jovem alma, do que mais gostava quando era
encarnado?
- Gostava do sol da manhã, quando me sentava à varanda de
minha casa e sentia uma brisa calma e fria no rosto.
- Diga-me então, jovem alma, o que você imagina que ainda
irá gostar quando voltar a ser encarnado?
Acordou às 5 da manhã. Tomou um banho rápido, café da manhã para ela e
para a criança que iria para a escola dali a 2 horas. Pegou a filha menor,
enrolou em um pano que passava pelo seu pescoço e mantinha a pequena segura,
sentada ou deitada, próxima de seu peito. Cesta de salgados feitos no dia
anterior, outra um pouco menor para os doces – colocava amor nos alimentos que
preparava, pois conforme sua mãe ensinou, às vezes uma pessoa só precisa de
algo feito com amor para começar o dia bem.
Foi para o ponto de ônibus, como todos os dias. Pegaria dois e chegaria
à estação de metrô, com sorte venderia algo ainda no ônibus. Já no trem a
situação seria um pouco diferente, não era permitido comercializar nada em seus
vagões, mas uns conhecidos sempre compravam algo e assim outras pessoas que
saíram apressadas de casa a iriam ver e pediriam também. Grande parte do que
fizera para vender se esvaziava nesse trajeto e o restante venderia no centro.
Todos os dias os mesmos caminhos.
Exceto naquele dia, em especial. Veio outro motorista, não o que fazia
a linha habitualmente. Pediu, como sempre, para que abrisse as portas
traseiras, já que teria dificuldade de passar com a criança pela catraca.
- Não posso abrir não senhora.
- Como assim não pode abrir?
- Não posso... – e começou a sair com o ônibus.
- ELA VAI PAGAR – Alguém já acostumado com sua presença no ônibus
naquele horário gritou.
- Ah sim... – e abriu a porta.
Subiu, constrangida. Embora se sentisse mal, tinha que vender seus
salgados e assim o fez, afinal, não havia nada de novo em um país racista.
Mas naquele dia havia sim.
Timidamente um homem se aproximou.
- Com licença... posso conversar com você?
- Sim claro. - disse com seu sorriso inabalável no rosto.
- Sou fotógrafo... trabalho com fotos de empoderamento e você... bem...
você é linda com a criança nos braços.
- Obrigada. – Outro sorriso, novamente gentil.
- Poderia tirar uma foto sua?
- Sim, sem dúvidas. – e se preparou para a foto.
Sem saber, que ali, em um assento de ônibus, com duas cestas e uma
criança no colo e como tantas outras mães negras que saem pela manhã para
conquistar o sustento para seus filhos e ganhar a vida honestamente, invocava
figura indomável de um Imperador.
O assento? Seu trono.
Suas crianças? Seu reino.
Suas cestas? Seu cetro
Seu cabelo crespo? Sua coroa.
E nunca, motorista algum, iria fazer com que ela se sentisse menor.
Pois não era.
Ergueu-se do chão, embainhou a espada. Logo mais uma luta se aproximaria e estava cansado. Passou os dedos no bigode
espesso, ergueu os olhos para a imponente estátua diante de si. Diziam que
protege a todos que assim o merecem e diante desses anos de guerras, pedir por
mais uma proteção poderia de alguma forma pesar demais. Com olhos de uma
criança inocente e meio sorriso no rosto, disse: - Uma vez mais, Grande Dama.
Abençoe este guerreiro para o que tenha que acontecer. Vestiu-se com armadura,
elmo e pegou o escudo. Montou seu cavalo e foi para o campo de batalha.
* * *
Entregou seus sentimentos sem medo, talvez uma atitude um pouco provocada pelo
Louco, com a força de um Carro. Mas o fez. E agora pedia clemência e suspirava
por uma luz no fim do túnel que demonstrasse a ela que não tinha feito errado.
Acendeu um cigarro, depois outro e outro. No quarto, o celular vibrou. Mensagem
da operadora. Assim, iria para a quinta vez que usaria o isqueiro. Estava
particularmente bonita naquele dia, um vestido que ia um pouco acima do joelho,
vermelho é claro, meias finas pretas, bota de cano curto e um lenço que por
vezes funcionava como xale. E ainda não sabia o que diria, se diria e por onde
começaria. Ele entrou apressado, com certa urgência no andar, talvez por estar
atrasado. Sentou-se a mesa e a olhou no fundo de seus olhos castanhos.
* * *
Lutou com todas as forças pelo cargo, fez tudo o que podia e algumas coisas que
não podia. Deixou de lado sua vida social (algo que pensava não ser mais
necessário desde o término da faculdade), terminou relacionamentos, não visitou
os parentes por algum tempo. Dedicação total. Mas ainda sentia que não teria
como alcançar o que desejava. Motivos? Nenhum aparente, talvez fosse a política
e o jogo dos poderes dentro da empresa. Pensou em vários momentos em desistir.
Talvez assim pudesse recuperar o tempo perdido dentro do escritório – muito
embora, não se sentisse confortável em dizer que o tempo foi, de fato, perdido.
Fez algumas amizades, ampliou a quantidade e a qualidade de seus contatos e
isso por si só já deveria ter valido a pena. Talvez.
* * *
- E daí?
- Bem... o
guerreiro morreu. Era velho demais para mais uma batalha e assim, por mais que
tentasse não poderia sobreviver.
- O que há de justo nisso?
- Ergueram uma
estátua dele na praça principal da cidade e todos contavam suas façanhas e as
crianças fingiam ser o homem enquanto brincavam. A Justiça pesa todas as ações,
pesa tudo o que é favorável e o que não é, e oferece aquilo que lhe é por
direito.
- Sei... e a mulher?
- O namoro acabou. Mas não que fosse sua própria
culpa, mas como permanecer em algo que foi negligenciado pelo seu parceiro? Em
um primeiro momento, a situação se configura ruim para ela, mas quem estava
colhendo os frutos mal plantados era ele. A Justiça pesa todas as ações, pesa
tudo o que é favorável e o que não é, e oferece aquilo que lhe é por direito.
-
Hum... é... meio estranho.
- O homem, ele não conseguiu o cargo por mais que
tivesse se esforçado. Mas foi chamado por outro setor, onde cresceu muito mais
se valendo dos conhecimentos adquiridos anteriormente. A Justiça pesa todas as
ações, pesa tudo o que é favorável e o que não é, e oferece aquilo que lhe é
por direito. - Não entendi, eles parecem que se deram mal, mesmo tentando fazer
o certo.
- Você entenderá... - Ofereceu mais uma xícara de chá, enquanto olhava
para o jogo aberto.
E solene, a Justiça
encontrava-se no centro da mesa.
A torre cai impiedosa.
Aqueles que estão dentro são lançados para fora arrebatadoramente e não há mais
teto ou parede para se proteger, não há mais bases sólidas para se manter. O
destino cármico bate à porta e sem aviso a abre, escancara, destrói. Ficam para
trás apenas destroços.
E nossos jovens heróis, jogados ao tempo e à própria
sorte, em total revelia à sua vontade? Sentem a grama fresca sob suas mãos,
quando se apoiam e olham para a lua, que paira solene sob suas cabeças. Embora
perene e de brilho intenso, a lua cheia não é a única a se mostrar a eles. Sob
um céu estrelado, recordam-se de uma estrela em especial que a partir de um
local distante, guiou grandes reis magos em uma peregrinação.
E ali está ela
novamente, e como em um passe de mágica a lua escurece. Seu desaparecimento
traria trevas e caminhos distorcidos, frutos de uma visão pouco acostumada à
escuridão. Traria, se não existisse o astro luminoso com outros sete astros
brilhantes ao seu redor. Abaixando os olhos, os heróis veem uma figura feminina
nua, com um jarro que verte água infinita. Seu olhar, negro como a noite e com
pequenos pontos brilhantes, acalenta seus corações e onde havia desespero pela
derrocada, transforma-se em plena luz.
“Sou Pandora, que abre a caixa e liberta
a esperança. Sou Héspero, a Estrela Vespertina. Sou Eósfero, A Estrela da
Manhã. Sou Astreus, Senhor das Estrelas. Sou a Cura e a Certeza. Sou aquela que
derrama as águas da criação sob a terra. Vinde a mim e deixai os destroços
daquilo que já não faz parte de vós.”
Tiraram o elmo. Abandonaram a espada e o
escudo. Despiram-se da armadura. Seguiram nus em sua direção.
O rio corria limpo aos seus pés. Deitou-se para esticar a
coluna e arrumou o óculos que insistia em cair quando estava suando. Mexeu os
dedos dos pés embaixo da água enquanto abria os braços e sentia o calor do sol
o tocando.
- Céu azul, você percebeu? – Perguntou o humanoide.
- Sim, dia maravilhoso. – Respondeu o rapaz.
- Já fez o que tinha de fazer?
- Sim, tudo.
- Limpou o espelho?
- Até mesmo devolvi para sua dona.
- Alimentou os lobos?
- São cães. Se eu der mais comida irão engordar.
- Limpou a casa?
- Está cheirosa.
- Então é tempo de deitar e deixar o sol te aquecer?
- É passada da hora.
- Posso então tocar uma melodia?
- Claro meu amigo.
O sátiro tirou a flauta do bolso e colocou-se a tocar a
história de um antigo deus que venceu um dragão e dele obteve um oráculo. Este
mesmo deus viveu outras grandiosas histórias e por vezes sofria por desdenhar
de outros deuses, como quando o vento matou por inveja, o seu mais belo e
estimado amor.
- Arcos, flechas, conquistas, amores. Uma bela música.
- Tragédias, algumas tragédias... principalmente quando seus
amores foram todos tirados dele.
- E não perdeu seu brilho.
- O deus sol nunca perde. Aliás, daqui, virando um pouco a
cabeça de lado... talvez seja só o sol a pino... ou a sombra próxima da
cerejeira, mas como ela não recai sobre você, imagino que não seja isso também.
Meu velho amigo, que luz apagada é essa?
Virou a cabeça para o fauno, suspirou.
- Tédio.
- Então coloque agora a se levantar, vá buscar o arco, vá
caçar.
- Hoje não Agreevos.
O sátiro se silenciou e olhou para as folhas da cerejeira
que balançavam levemente com a brisa.
- Há um rapaz, muito belo, que se banha no lago de baixo. Lá
perto onde tem tantas daquelas flores... como se chamam?
- Jacinto.
- Sim, este é o nome dele. Por que não vamos dar uma volta
por lá?
- É mesmo bonito? Vale a pena a caminhada?
- Por fora posso afirmar.
Levantaram-se e foram. Desceram a trilha e caminharam por
uma vegetação aberta que permitia alguns raios de sol passarem por suas
folhagens, encontraram alguns frutos suculentos e se divertiram fazendo o jogo
da verdade, em que cada um conta uma história de si mesmo e o outro deve
adivinhar se é verdade ou mentira.
Chegaram a um ponto da trilha que era possível ver o lago
logo abaixo. E nele, um jovem nadava nu, com a pele morena sendo tocada pelo
sol e pela água. Afundava, dava braçadas, se deliciava naquele dia quente.
- Bonito mesmo.
- Vá até lá, entre na água.
- Não, você é louco? Vou assustá-lo.
- Você também tem seus atributos, embora beleza não seja o
mais enaltecido deles.
Riram um para o outro e o rapaz escutou uma voz alta.
- Quem está aí? – Falou alto em certo tom tenso. O sátiro
empurrou o rapaz que quase rolou barranco abaixo até chegar ao lago. Por
reflexo, segurou um galho de árvore.
- Ahm... desculpe incomodá-lo... estava vindo para o lago e
bem... não sabia que tinha alguém aqui.
- Ah sim, eu já estou saindo... fique a vontade.
- Não se preocupe... venho outra hora.
O rapaz do lago fingiu não ouvir e embora fosse contar mais
tarde sobre a vergonha de estar nu, naquele momento o outro jamais poderia
imaginar.
Às margens do lago, estenderam as mãos e se cumprimentaram.
- Venho todos os dias por esse horário... se quiser
podemos... – percebeu que não tinha com o que completar a frase.
- Sim, podemos... tentarei vir amanhã. – Respondeu rapidamente
o outro.
Jacinto partiu rápido, talvez pela sensação de vergonha.
O sátiro que fez um balanço com cipós e magia, tocou mais
uma vez a flauta, fazendo o amigo lhe olhar com um sorriso.
- Obrigado.
- Hora, vejamos só se não temos um novo brilho aqui? Bem
quente por sinal.