O Louco se joga porque há um precipício ou há um precipício por que o Louco se joga?
- Vamos pular bebê?
- De novo?
- Sempre.
Estimado Livro do Espelho,
Me lançarei mais uma vez por terras desconhecidas, em busca daquilo que mais preciso e que não se resume a uma pessoa ou desejo ou qualquer – e tudo – aquilo que é material. O início de qualquer viagem me faz sentir os joelhos tremerem como quando era uma criança à espera da primeira aula.
Mas com esse livro, com essa lanterna, com essas pílulas em meu bolso, talvez seja mais fácil e mais calmo. Ou estou apenas tentando me enganar, mas tenho certeza que será no mínimo divertido.
Quando olho para trás percebo que muitas situações se configuraram para que eu pudesse estar novamente à beira do abismo, ou olhando para um grande espelho que posso atravessar.
Vamos correr atrás do coelho, vamos nos jogar em um buraco sem fim e vamos encontrar um novo mundo. Vamos beber da pequena garrafa, vamos comer do bolo, vamos fazer uma lagoa de lágrimas, vamos tomar chá com o Chapeleiro e conhecer o gato Risonho e quem sabe fumar narguilé com a Lagarta azul e tentar não perder a cabeça com a Rainha de Copas.
Avante e sem conhecer o caminho, com uma mochila cheia de histórias, com todas as cicatrizes do coração e um olhar determinado.
E uma lanterna para iluminar o caminho, e um livro para escrever tudo o que conhecerei.
Ou o poço era profundo demais, ou ela caía muito devagar, pois teve tempo de sobra durante a queda para olhar em volta e perguntar-se o que iria acontecer em seguida. Primeiro, tentou olhar para baixo, para ver aonde estava indo, mas estava escuro demais para ver qualquer coisa: então, olhou para as paredes do poço e notou que estavam cheias de armários e prateleiras: aqui e ali viu mapas e quadros pendurados. Enquanto passava, pegou de uma das prateleiras um pote: tinha o rótulo “GELÉIA DE LARANJA”, mas para seu desapontamento estava vazio: não quis jogar fora o pote, com medo de acertar mortalmente alguém lá embaixo, então, esforçou-se por colocá-lo de volta em uma das prateleiras enquanto passava.
“Bom”, pensou Alice, “depois de um tombo desses, não vou achar nada demais cair de uma escada! Todos lá em casa vão pensar que fiquei muito corajosa! Não lhes vou contar nada, mesmo se cair do telhado!” (O que era bem possível que acontecesse.)
Caindo, caindo, caindo. Esta queda não acabaria nunca?
Eu estou ficando cansado e preciso de alguém em quem confiar
Me deparei com uma árvore caída
Eu senti os galhos dela olhando para mim
É este o lugar que costumávamos amar?
É este o lugar com que tenho sonhado?
Oh! Coisa simples, aonde você foi?
Eu estou ficando velho e preciso de algo em que confiar
E se você tiver um minuto por que nós não vamos
Falar sobre isso num lugar que só nós conhecemos?
Isso poderia ser o final de tudo
Então por que nós não vamos
Para algum lugar que só nós conhecemos?
Algum lugar que só nós conhecemos
Oh! Coisa simples, aonde você foi?
Eu estou ficando velho e preciso de alguém em quem confiar
Então me diga quando você vai me deixar entrar
Eu estou ficando cansado e preciso de algum lugar para começar
E se você tiver um minuto, por que nós não vamos
Falar sobre isso num lugar que só nós conhecemos?
Porque isso poderia ser o final de tudo
Então por que nós não vamos
Para algum lugar que só nós conhecemos?
Algum lugar que só nós conhecemos
Pegou o candeeiro da bolsa para iluminar a caverna onde
havia entrado e o acendeu com cuidado. Pelas paredes desenhos que pareciam ser
feitos por uma criança – e cobriam toda a extensão da caverna. Pareciam
representar momentos de duas pessoas, sempre nas cores azul e vermelha e em
alguns momentos da história contada podia-se ver outras figuras desenhadas com
uma cor preta e estas lembravam sombras, fosse pela posição em que estavam,
seja pela forma como interagiam com os dois. De maneira geral pareciam felizes
um com o outro, sempre juntos e em alguns momentos de mãos dadas.
A luz que saía do candeeiro e iluminava a parede mantinha um
foco sempre para frente, mas sem que o homem se virasse, a luz foi lentamente
deslocando-se para esquerda e focalizou na parede que estava atrás dele. E os
desenhos ali já não eram tão felizes, pareciam tentar transmitir momentos de
solidão dos dois, afastamento, lágrimas.
A luz continuou sua evolução para a esquerda, até que
iluminou um garoto de pele branca e cabelos lisos.
- Oi – ele disse.
***
- Então esses desenhos são sobre vocês dois e o que viveram
aqui.
- Sim. – Disse com uma certa mágoa na voz.
- E onde ele está agora?
- Aqui – Apontou para o coração.
Caminharam para dentro da caverna até encontrar uma pedra
que lembrava um banco e sentaram-se.
- Sinto falta dele.
- Ele deve sentir a sua falta também.
- Acho que não, ele decidiu sumir.
- Talvez ele precisasse. – E o garoto fez sinal que sim e
não disse nada. – Vocês brigaram?
- Mais ou menos.
- Por que não foi atrás dele?
- Eu estava ocupado demais brincando.
Olhou ao redor e não viu nenhum objeto que pudesse ser usado
como brinquedo.
- Brincando com o que?
- Com as sombras.
Seguiu-se um longo silêncio.
- Quer que te ajude a encontra-lo?
- Pra isso vou ter que sair daqui.
- Então vamos sair, eu te levo.
- Ele me disse isso também.
- E por que você não foi?
- Por que quis ficar aqui, é o que conheço, é o que construí
para mim. Não sei o que há lá fora.
- Por isso ele foi embora? Por você não querer ir com ele?
- Não.
- Foi por qual motivo então?
- Ele ficou aqui tempo demais, esperou tempo demais...
- E por que ele ficou aqui com você?
- Eu dizia que queria sair da caverna...
- Mas você não queria?
- Não.
- E ele acreditou em você?
- Sim.
- E quando ele percebeu que você não tinha a intenção de
sair?
- Todas as vezes que eu deixava as coisas acontecerem, todas
as vezes que ele me pegava pela mão... eu corria.
- Para onde?
- Para as sombras, ficava brincando com elas.
- E ele?
- Ele chamava meu nome no meio do escuro, me procurava
tateando por aí.
- E você não foi ao encontro dele quando ele te chamava?
- Não.
- Por que?
- Tenho limitações, restrições... e as sombras estavam
comigo.
- As sombras te faziam feliz?
- Não. Mas era o que eu conhecia.
- E você não preferia conhecer ele?
- Não sei dizer... mas ele foi se mostrando aos poucos e
mesmo sem saber fui conhecendo.
- E ele foi te conhecendo também?
- Sim.
- Por que ficar com as sombras ao invés dele então?
- Ele queria muitas coisas e eu tive medo.
- Que coisas?
- Ir lá para fora.
- E valeu a pena?
- Ter conhecido ele?
- Ter preferido as sombras?
O garoto se levantou e olhou ao redor, enquanto o foco da
lanterna fez uma nova evolução, mostrando as duas paredes. As alegrias, as
brincadeiras, as besteiras, os abraços, os toques, a presença; as lágrimas, as
mágoas, o abandono, as dores.
- Não sei dizer.
- Você sente a falta dele?
- Muito.
- O suficiente?
- Sim.
Então o homem se levantou.
- Te levo a ele.
- Não posso.
- Por qual motivo?
- Vai ser diferente de tudo o que eu conheço e não sei o que
vou fazer.
- Diferente de que forma?
- Ele me ama.
Essa frase parecia causar grande confusão ao garoto.
- E você?
- Não sei.
- Não sabe se o ama?
- Não sei o que significa amor.
O homem sorriu bondoso, passou a mão na cabeça do garoto.
- Amar significa muitas coisas, inclusive se doar. Uma vez,
em um deserto distante daqui, eu conheci um garoto de cabelos loiros e ele
também não sabia o que significava amar. Deixou sua rosa para trás e viajou por
muitos lugares para tentar descobrir o que significava e encontrou uma raposa
que o ensinou coisas muito importantes sobre isso.
- O que ela ensinou?
- Que nós temos responsabilidade com aqueles que nos amam.
- Mas eu não quero, eu tenho minhas limitações e minhas
restrições. Outras pessoas passaram por aqui, elas me empurraram para dentro da
caverna e fecharam a entrada. Não posso sair.
- A saída está aberta, eu entrei por lá.
- Mas não posso deixar minhas sombras para trás, elas são
importantes. Me ocupam durante todo o dia e às vezes me afagam se oferecendo a
mim.
- Então você está bem sem ele?
- Não. Quero ele aqui comigo.
- E por que ele não está aqui?
- Por que aqui não é o lugar dele. O lugar dele é lá fora embaixo
do luar e eu sei que nada irá impedi-lo de ficar no lugar que é dele.
- E aqui é o seu lugar?
- Não sei. Deve ser. Fiz daqui o meu lugar. – Escorreu uma
lágrima.
- O que você realmente quer?
- Que ele me tire daqui.
- Vamos tentar uma coisa?
- Não sei. Não sei se posso confiar em você.
O homem ergueu o candeeiro na altura do próprio rosto.
- Prometo que você terá o que precisa. Mas não prometo que
conseguirá o que deseja.
O garoto olhou ao redor, para todas as sombras que se
formavam em volta de si e com um sussurro elas diziam o quanto ele deveria
ficar ali, o quanto eles tiveram momentos especiais e o quanto elas estavam com
ele e se embrenhavam nele e eram ele. O candeeiro emitiu uma luz forte que as
dissipou instantaneamente – afinal, elas tinham a importância que o menino lhes
dava – olhou para o homem e com uma expressão de medo, quase terror.
- Depende de você.
- E se tudo der errado?
- Te trago de volta.
- Promete?
- Sim.
***
Tirou as vendas dos olhos e encontrou seu maior terror: o
mundo do lado de fora da caverna. A floresta ao redor e todos os barulhos e
tudo aquilo que ele não conhecia e que poderia saltar para fora da mata e
pegá-lo. Virou-se para abraçar as pernas do homem e quando olhou para o rosto
dele e pronto para pedir para retornar, viu o céu estrelado e a lua cheia que
brilhava com força. Soltou devagar o homem e ficou encantado com tantos pontos
brilhantes em um véu negro que se estendia além dos limites, das restrições. O
infinito era realmente imenso, assim como a escuridão também é, mas ao
contrário desta o céu não prende e não sufoca. Era lindo e maravilhoso. Deu as
costas para o homem enquanto olhava para a lua.
- Oi – Disse o outro garoto, que segurava o candeeiro e
estava ali no mesmo lugar que o homem.
A última, o fim, o grand
finale. Gira em torno de si mesma enquanto lança suas mãos ao ar, fazendo
lentos movimentos como se criasse o mundo – dança sem que mais nada importe.
Encerra em si, as cortinas se fecham... e se abrem para o bis.
Toca docemente meu rosto, em uma sintonia virtuosa que diz
sem palavras: é chegada a hora.
E todos eles dançam ao redor como quadros que observam a
finalização, cientes de cada contribuição.
O Mago tira sua cartola, e solta seus cabelos enquanto
balança a cabeça com força, jogando o bigode para longe. Diante de si todas as
ferramentas que gentilmente cedeu para a caminhada. Tudo à disposição, mas que
fique claro que a autossuficiência é um engano se não aceitar os desígnios dos
céus. Ela aponta para cima como se indagasse algo.
A Torre flutua sendo atingida por um raio, lançando duas
pessoas para fora; e logo depois essas mesmas pessoas a reconstroem. Vem então
um terremoto e tudo se repete. E então vem o fogo. E então vem o mar. E a
pessoas a reconstroem – afinal, a Torre existe e virá de qualquer forma,
arrasará nossas frágeis e ineficazes paredes para que permaneça apenas aquilo
que precisa permanecer. Um relâmpago brilha ameaçador antes de atingir a
construção novamente.
Ela se vira com o rosto ansioso e me olha fixamente – atrás
dela dois homens se colocam para a derradeira escolha, cada um com
características tão distintas que é impossível tentar racionalizar a questão. O
cupido, o grande e incansável Enamorado se coloca com a flecha apontada e
quando atira um anel de casamento cai das mãos dela. A escolha por aquilo que
apela nosso coração exige certos sacrifícios. Mas toda escolha exige
sacrifícios.
No próximo quadro, brilha a Lua com força e ela reflete as
roupas prateadas da Grande Avó que, com um sorriso gentil, traz toda uma gama
de sombras que se lançam a partir da sua imagem – lembrando que às vezes os
caminhos se confundem e que a dúvida e o medo do escuro são naturais, mas basta
olhar para ela, basta acostumar os próprios olhos ao jogo de sombras
bruxuleantes. Atrás dela, a areia remexida aguarda o retorno.
A luz quase me cega, mas aos poucos me acostumo. Um fauno
pula de um lado para o outro enquanto dois jovens nus estão deitados lado a lado
comendo uma maçã, e sorriem enquanto se divertem com algo que apenas os dois
conseguem entender. Ao alto do quadro o Sol vai de lado a outro, do amanhecer
até quase escurecer, para então voltar pelo mesmo caminho. Ao contrário do
quadro, eu sabia que nenhum sol dura para sempre – assim como nenhuma lua. Mas
devemos valorizar nossos momentos de felicidade, tanto quanto os momentos de
confusão.
A noite se mostra aveludada e um certo temor se apodera de
mim quando na parte inferior do quadro vejo destroços daquilo que seria a Torre,
e as duas pessoas a chorarem. Um brilho tímido surge no céu e vai aumentando a
intensidade enquanto os dois completamente nus limpam suas lágrimas. A Torre
vem sempre para destruir aquilo que não serve e a Estrela surge no fundo da
caixa tal qual a esperança – depois que todos os males foram libertos.
A balança pende para aquilo que mais pesa. Os atos, as
palavras, os desejos... são plumas que caem uma a uma nos pratos, cada atitude
e cada pensamento tem seu próprio peso – o quanto deve pesar então uma pessoa
por completo? Colocamos ali tudo a que se refere a nós e ela julga, mostra para
qual lado o que fazemos pesa, e então colhemos.
Uma mulher negra se levanta e com a postura ereta e o corpo
determinado quase se projeta para fora da moldura. Com a lança em punho e com
os desenhos africanos da guerra pelo corpo ela se apodera da força que tantos
dizem ser masculina – ela é a caçadora, ela trará o alimento, ela proverá, ela
conquistará, ela subjugará. Contemplo então como é possível apoderar-se do
arquetípico, e sem muito tempo para refletir, ouço um grito de guerra que enche
meu coração com coragem e determinação. Sabia então que estava pronto para a
peleja.
O samurai comete o harakiri
e sinto a dor em meu estômago, olho para baixo e vejo minhas mãos segurando firmemente
a katana que me atravessa o corpo. Minha visão fica turva enquanto o sangue
jorra da minha boca. Tudo enegrece. Olho para meu corpo caído e quando ergo a
cabeça para o quadro ouço gritos de dor enquanto uma criança vem ao mundo. A
Morte permeia em tudo, e em nós quando decidimos cortar e tirar de nós aquilo
que não precisamos - não importa a dor dilacerante que se segue, mas sabemos
que renasceremos.
A trombeta soa com força e então o samurai levanta se
transformando em uma anciã, ao lado de uma mulher grávida e de outra, mais jovem
que as três. Colocam-se a mexer no caldeirão que está na frente delas,
transmutando tudo o que é colocado nele. Uma lagarta paira flutuando acima das
três e então um casulo a cerca para logo depois se abrir e dali voar a
borboleta que cuidadosamente pousa no instrumento de sopro segurado pelo anjo.
Quando soa a trombeta somos chamados para a transformação, o anjo do Julgamento
nos chama a refletir e evoluir.
A Imperatriz segura o cetro e o escudo do alto de seu trono.
Cria, amamenta, cuida e tudo o que toca cresce e floresce, mesmo o mais frio e
machucado coração. A mãe por excelência que é também a mulher sensual que tem
em sua cama o homem que deseja. Ela se coloca no quadro como uma figura altiva,
com a experiência e a sabedoria escrita em seu rosto, proporcionada pelo amor
que nutre e abunda.
Uma árvore cresce do lado direito, próximo à moldura. Diante
de meus olhos vejo o caule se formando e indo ao alto para no final terminar em
um galho para então entrar em cena um homem que sobe na árvore, laça a própria
perna e se pendura de cabeça para baixo. Ele cruza a outra perna formando o
número quatro e seu rosto expressa uma serenidade infinita, de alguém que se
coloca na posição e aguarda não ser salvo. Escolha própria se enforcar. Escolha
própria permanecer assim. Mas seus olhos fechados talvez contestem essa verdade.
O Carro avança com seus cavalos, um negro e outro branco.
Vejo o rastro que ele deixa, mas seu condutor não olha para trás, há muito o
que avançar e se prender ao passado não trará progresso algum. Os animais puxam
as rédeas cada um para um lado, o bem e o mal se misturam enquanto avançam
quase indomáveis, mas o homem faz jus à coroa que carrega e grita seus nomes e
os puxa de volta. Ele conduz.
Íris se vira lentamente para me contemplar. Um rosto sereno
com variadas cores que quase saltam do quadro – em suas mãos dois cálices, o
qual ela vira a água de um para outro. Vejo em seus lábios palavras se formando,
sem som. “Só existe uma maneira de se
viver para sempre, que é compartilhando a sabedoria adquirida e exercitando a
gratidão. É o homem entender que é parte do todo: nem ser menos, nem ser mais,
ser parte da natureza”.
O homem, ou talvez fosse mulher, surgiu por entre uma
espessa névoa azulada e sem se deter em demonstrar o seu gênero mostrou um
livro, um livro que me pertence. Nossas histórias nos definem e nossa memória é
um grande apócrifo que conta o nosso nascimento à nossa crucificação,
ressurreição e morte. A Sacerdotisa trás para nós aquilo que está em nós, basta
olharmos para dentro, basta olharmos o espelho.
O velho balançou o candeeiro de prata e com um gesto bondoso
me cumprimentou. Um velho amigo que saúda a minha passagem. Aceno de volta e
nessa troca percebo claramente que agora é o nosso encontro final, pois ao
partir desse quadro não serei mais o mesmo – mas não há espaço para lágrimas e
despedidas, pois o candeeiro que ele balança é o mesmo que está comigo e não me
esquecerei.
A Roda gira e quem estava em baixo vai aos poucos escalando,
quem estava escalando chega ao topo, quem estava no topo escorrega ladeira
abaixo, que antes escorregava agora encontra o fundo. E ela gira, gira, gira.
Não pude conter o riso olhando para ela e me recordando a forma como chegou
para mim. Agradeço pela presença, agradeço o momento, mas assim como ela, estou
de passagem.
Olhou para o garoto sentado na cadeira com cordas caídas ao
seu redor. Hora, não era o Diabo que tentara prendê-lo e mantê-lo no escuro? E
ele agora sorria maliciosamente enquanto mantinha os pequenos pés a prender as
cordas. Quem estava dominando quem, quando tivemos nosso encontro?
O Hierofante ostenta um olhar firme e agora ele sabe que
algo foi feito. Outras coisas também foram feitas. De algum modo me sinto como
ele, de algum modo me sinto como se estivéssemos em igualdade e isso causa uma
certa ansiedade em meu peito. Uma despedida e uma boas-vindas.
O Leão rugiu e a mulher o abraçou. Ele que estava prestes a ataca-la
nada pode contra os braços gentis que o envolviam e o carinho que recebia em
sua juba. Deixou-se levar pela mulher, não pela imposição dela, mas apenas por
querer assim. E ela controlou seus instintos animais, ela dominou sua fome,
calou seus dentes quando estes queriam abocanhar e destruir algo. Eles
tornaram-se apenas um.
***
Os quadros giraram rápidos ao meu redor até que se tornassem
um borrão e então, girando, foram se elevando e diminuindo de tamanho, até se
tornarem um arco que poderia caber em minhas mãos. Mas não estavam comigo.
Ele saltou fazendo acrobacias, cambalhotas e dando saltos
mortais. Parou no meio do picadeiro, com a mão estendida como se oferecesse
algo – mas não estava oferecendo – o arco que ainda estava a girar desceu e
parou a uma curta distância da palma de sua mão. Ele então começou a dançar com
mais acrobacias que antes, enquanto o arco girava ao seu redor, e os dois
dançavam como se fossem velhos parceiros. Um pequeno cão apareceu latindo e
pulando, na tentativa de pegar um dos panos que balançavam a partir das vestes
do Louco.
O chão do picadeiro se escureceu e tudo ao redor passou a
brilhar com pequenos pontos de luz.
Demorei a perceber que eram estrelas e que
então o Tolo e as cartas dançavam em frente a um planeta que pouco a pouco saía
das sombras e se mostrava como quem não pede licença.
E sem aviso, tudo escurece.
***
Acordo nu, um cão me
lambe o rosto.
Me espreguiço e à minha direita um precipício.
Começo a gargalhar enquanto caminho em sua direção.
Levou o cigarro à boca para mais uma tragada. Olhava para o
sol que lentamente se despedia de um dia de céu azul e sorria com os olhos
diante da cena que esquentava a alma.
Dominar a si mesmo.
Refletiu por uns instantes sobre como o último ano o havia
afetado e como se portava em vistas do início do novo caminho que se aproximava
dele. Não havia sinais das mudanças que ocorreriam, mas em seu âmago a certeza
era cada vez mais clara: chegara ao fim de mais um período (particularmente)
adverso.
Desta vez, contudo, em meio às quedas e às dificuldades e
obstáculos que se erguiam como muralhas de espinhos, sem passagem, sem
escalada, apenas as dores do toque de agulha que as protuberâncias de metal a se
projetarem diretamente para a pele, lembrou-se então daquilo que marcara em si
mesmo – ad astra per aspera. E
percebeu como havia passado pelo muro e como, de lá de cima do balão, ele
parecia pequeno e inofensivo.
Mais um trago e soltou a fumaça observando como adquiriam
contornos e formas, dissipando-se no ar.
***
“Quando o carnaval
passar, quando o carnaval passar
Vamos dançar
Qualquer coisa é
melhor que tristeza
Por favor
Se esqueça”
Levou a garrafa à boca e sentiu o gosto da vodka tocar suas
papilas gustativas se estremecendo e então engoliu o líquido rapidamente.
Sentia uma leve dormência em seus sentidos e uma letargia em seus pensamentos,
mas fisicamente estava cada vez disposto.
Lembrou-se novamente de um velho amigo a dizer “as pessoas vão para se divertir, mas o
lugar é tão ruim que só se divertem quando estão bêbadas, então saem para beber
para se divertir. Imagine um lugar tão ruim que você não consegue estar ali se
estiver sóbrio – então por que as pessoas vão até lá?”. De alguma forma era
essa a sensação, mas por algum motivo a bebida naquele momento parecia ser
apenas um toque a mais. Talvez pela senhora de 84 anos a se divertir com os
indicadores apontados para cima e uma dancinha leve, ou talvez pelas crianças
que brincavam ao seu redor jogando espumas por todos os lados, ou talvez pelas
famílias que estavam ali e não se importavam de dividir o mesmo local com o
morador de rua (que tantas vezes era ignorado e invisibilizado) que dançava
quase no mesmo passo que a senhorinha e com a disposição das crianças – talvez esse
conjunto e a disposição de todos ali para brincar e se divertir o fizessem se
sentir à vontade, como não se sentia em qualquer espaço.
Não pensou em nada, se esqueceu dos problemas, dos
questionamentos, das incertezas e até certo ponto, dos sentimentos. Um piloto
automático que toma o controle mas não impede risos e diversões.
Viu-se por instantes,
em meio à tantas pessoas diferentes entre si, como um abençoado, na situação em
que a água benta que batiza a criança, estava na garrafa com forte gosto
alcoólico.
“Vou criar um lugar
escondido
Pra fazer meu recital
Quando o carnaval
passar, quando o carnaval passar
Quando esse escarcéu
passar”
***
- Ele parece que te faz bem.
Essas palavras lhe socaram a boca do estômago, mas deveria
ser assim, deveria deixar ir.
No fim não era tão diferente das outras histórias – sempre que
se apaixonava antes, as coisas não evoluíam, como um golpe do
destino, e mesmo as tentativas de fazer coisas interessantes e de
fazer o outro sorrir ou se sentir feliz eram em vão, então o melhor era sempre
permitir ir. Tirar do coração.
Mas algo diferente aconteceu, sua frustração diante da
repetida situação já não o afetava tanto quanto outrora.
“Você escreveu todas
essas coisas para as quais dizer adeus. Mas há tantas coisas boas. Por que não
dizer adeus às coisas ruins? Diga adeus a todas as vezes que se sentiu perdido.
Aos momentos que houve um não ao invés de um sim. Aos arranhados e machucados,
à toda mágoa. Diga adeus a tudo o que você quer fazer pela última vez”
E foi então que disse adeus a todas as vezes que assistia o
seu desejo acontecer com outras pessoas.
Disse adeus ao abandono.
Disse adeus para todos os momentos que se sentia sozinho e
não tinha com quem compartilhar seus momentos de felicidade.
Disse adeus para aquele novembro que lhe tirou o chão.
Disse adeus à solidão que sentia quando esperou por horas
que algum familiar chegasse ao hospital.
Disse adeus para todas as vezes que nenhuma pessoa ao seu
redor demonstrava interesse em comemorar seu aniversário.
Disse adeus para quando apenas sua mãe esteve presente na
sua colação de grau.
Disse adeus para as pessoas que o procuravam tempos depois
de términos e separações para lhe dizer o quanto havia sido importante, mas não
valorizado.
Disse adeus para todas as vezes que alguém não acreditou em
sua capacidade ou que o desmereceu.
Disse adeus para toda forma de dor, desencorajamento,
mágoas, todos os nãos, as mentiras a seu respeito e toda tentativa de fazê-lo
menor do que era.
Disse adeus para todos os que se aproximavam sem nada a
oferecer, e muito a subtrair.
Disse adeus para todas as vezes que se relacionou por
necessidade e carência.
Disse adeus para tudo e para todos que o achavam menor,
fraco.
“Havia dor em seu
coração. A perda de alguém que amava mais do que a si própria a fez usar
caminhos escusos que não teria escolhido se tivesse com a consciência em paz.
Pegou a barra de metal, a faca e diante da fogueira fez um corte profundo em
sua mão – segurou o metal o mais firme que conseguiu e deixou que caísse
algumas gotas na fogueira, que escorriam pela barra antes que fossem consumidas
nas chamas. Entoou cânticos há muito esquecidos e ali vendeu parte de si mesma,
de sua alma. Vingança, um dos mais antigos sentimentos da humanidade, o qual
nem mesmo os deuses conseguem evitar, estava ali ao alcance de suas mãos e
mesmo que não estivesse, como conhecedora de grandes mistérios que era, a velha
bruxa lançaria mão do que fosse necessário para assim conseguir sua vitória. A
julgar pela mudança de cores no fogo bruxuleante, que variou entre matizes e
nuances, seu desejo seria atendido. A magia praticada pela velha previa o mal
ao próximo, perdão não era o sentimento que ela iria encontrar para os algozes,
mas não percebeu que antes de perdoá-los deveria perdoar a si mesma e assim
traçou sua queda no grande abismo que devora todas as almas – o sentimento
nefasto que cria sombras que nos puxam para próximo das trevas que criamos em
nossos corações e obriga nossa alma a se envolver com elas. Devemos sempre
temer por aquilo que desejamos, pois pode-se tornar realidade e a bruxa,
infelizmente, desejou olhar para o abismo.
Já a menina vestida em
roupas como se fosse uma pequena boneca, servia a todos os homens que assim
desejassem. Não por vontade própria, já que era jovem demais para desejar
relações sexuais com os mais variados tipos de pessoas, mas o dinheiro que a
pequena conseguia para seu dono (e não há uma palavra que defina melhor do que
essa, dono) não era facilmente conquistado pelas mulheres mais velhas. Seu
rosto sempre carregado de maquiagem branca, com leves toques avermelhados na
bochecha, e seus olhos com uma profunda sombra negra denunciavam a completa
destruição de sua inocência, mesmo que seus grandes olhos sempre amedrontados
lhe conferissem a sensação de ser uma presa para as feras que buscavam sexo
independente do quanto gastariam para isso. Sem saber exatamente quem era, usando
sempre o vestido curto e meias calças – ambos na cor branca da inocência,
adquiriu um gosto pelos atos sexuais que era obrigada a praticar, como se
aquela fosse a única forma de encontrar diversão e carinho em um mundo escuro e
distorcido que lhe arrancou a vivência de uma criança que deveria estar
brincando com bonecas e sendo preparada para o casamento. A francesinha de
séculos atrás foi servir a um homem em uma praia, e durante o ato nada pode
contra as mãos que lhe subiram de seus seios em formação na direção de sua
garganta, não tinha forças para sequer tentar evitar o que ali era inevitável.
Sufocou-se ainda sentindo o pênis do homem dentro dela. Foi atirada ao mar e não
se soube o que realmente havia acontecido.
Houve um casal também,
que por força do destino e das pessoas que viviam ao redor deles, foram
obrigados a fugir para viverem o seu grande e verdadeiro amor. Mas essa é uma
história que também não termina bem. Correndo por entre árvores em um caminho
de terra e pedra, a mulher tentava desesperadamente encontrar o homem – sentia no
fundo do seu coração que aquele desencontro na noite da fuga iria gerar grande
infortúnio, mas se fosse rápida o suficiente poderia encontrá-lo e então
partir. Os ardis de sua própria família a levaram ao atraso e ao desencontro
que, quanto mais corria, mais tinha certeza que seria fatal. Sentiu seu próprio
coração parar ao ouvir um estampido alto, que cortou a noite e fez com que
morcegos e corujas voassem para longe das árvores onde estavam. Sentiu em seu
próprio peito a dor do que estava acontecendo e quase desmaiou. Mas era forte,
forte demais para uma mulher de sua época (como seu pai lhe disse várias
vezes). Sujando de barro as barras de seu vestido negro, que fora
cuidadosamente escolhido pela sua mãe que lhe puxou os fios do espartilho com
pesar no rosto, mantendo eles seguros mas frouxos. Sua mãe, talvez no último
momento tenha se arrependido das próprias ações, mas mesmo o sussurro no ouvido
da filha (‘Corra’) não era suficiente para evitar a desgraça que se seguia. Encontrou
um grupo de homens que serviam à sua família e abrindo espaço entre eles
jogou-se sobre o corpo de seu amado. Em desespero gritou e chorou. Quando foi
encontrada pelo seu pai, seus cabelos cheios de cachos estavam sujos de sangue
que saiu pela boca do homem com quem desejava se casar. As palavras do homem
terminaram por retalhar seu coração. ‘Isso acontece quando não se ouve o
próprio pai’."
***
- Por que me contou apenas uma parte de cada história e não
todo o conjunto?
- O conjunto não acrescenta nada, essas partes são aquilo
que definem algumas situações atuais.
- Definem?
- Autoconhecimento é o que você busca não é?
- Sim.
Fez-se alguns momentos de silêncio enquanto o jovem olhava
para o nada, pensativo.
- Há alguma forma de mudar essas situações? As coisas que
aconteceram?
- Sim, existe.
- Irei fazê-lo.
- A partir daqui já não posso ajudá-lo.
- Gratidão mestre.
O homem de rosto inflexível se virou e então suas vestes que
eram simples, tornaram-se ornamentos de alguém de alta posição hierárquica, e a
julgar pelos símbolos, possivelmente pertencia a alguma ordem, alguma igreja.
Quando ganhou certa distância, virou-se para o jovem e fez
um sinal com mão como se abençoasse: dois dedos para cima, dois dedos para
baixo e o polegar firme ao centro da palma da mão.
As correntes se rastejavam por entre as sombras do quarto
escuro. No centro uma luz perene permanecia sobre a cabeça do menino que se
sentava em uma cadeira de metal – e ele ouvia sem medo os elos de aço se
contorcendo e se esticando enquanto se aproximavam dele. Permanecia imóvel
olhando para seus pés que não tocavam o chão.
***
As lembranças lhe chicoteavam as
costas, arrancando pedaços de carne, enquanto permanecia atado ao tronco sem
que pudesse se colocar contra a dor que era causada. Lágrimas escorriam pelo
seu rosto e tocavam o chão fazendo com que instantaneamente brotassem flores
aos seus pés - as margaridas desabrochavam em muitas pétalas. Seus olhos
marejados não lhe permitiam ver o que estava acontecendo e seu grito a cada
chicotada abafava a bela música que a natureza oferecia como um presente. Dos pulsos
um filete de sangue escorria por tanto esforço para se livrar daquelas amarras
e ele queria levantar-se contra, pegar a arma e açoitar aquilo que lhe marcava
profundamente. Talvez por estar de costas ou talvez por ter os olhos tão
lacrimejantes, ele não percebia, não via, que tentar algo contra quem o fazia
sofrer daquela forma seria machucar a si mesmo, pois quem lhe fazia sangrar,
era ele mesmo.
***
Enrolaram-se pela perna da
cadeira e alcançaram as pernas do menino, atando-se como cobras que enterram
suas presas e imobilizam o alvo, mas não pararam por ali e continuaram subindo
pela criança que permanecia passiva frente ao ataque deliberado. Quando seu
corpo estava completamente preso, em uma perfeição macabra em que a qualquer
momento ele seria esmagado pelo apertar dos elos, sorriu e olhou para as
sombras de onde as correntes vinham.
- Oi. – Disse o menino.
***
Roçou as cordas no tronco, não
pretendia ficar indefeso daquela forma e assim, concentrando-se na liberdade,
não mais gritou nem chorou – tinha um foco agora e iria sair daquilo não
importando o que fosse necessário fazer. Percebeu as flores aos seus pés e viu
em cada pétala uma história diferente, não sobre outras pessoas e não sobre
nada que é de fora do coração. Ouviu daquelas margaridas, através de suas corolas,
um segredo.
***
- Já não disse para você parar
com isso? – Questionou o garoto.
- Não pararei.
- Não adianta, eu venço você ao
final. Suas tentativas são pífias e irritantes. – Riu de si mesmo usando uma
frase que achava divertida.
Com ar de diversão o garoto
levantou-se da cadeira fazendo com que as correntes se tornassem pó e quando,
passo a passo saiu da circunferência de luz, um brilho intenso em seu peito
iluminou toda a sala e atrás de si, projetada no chão, havia apenas sua sombra.
***
Puxou os pulsos, um para cada
lado, entendendo que as grossas cordas eram na verdade linhas finas feitas de um
material intangível. Virou-se e encarou o jardim de margaridas que iam até onde
a vista não mais alcançava e agradeceu por elas estarem sempre ali, todos os
dias ao sair e ao voltar, para lhe lembrarem de coisas que são invisíveis aos
olhos.
***
Sabia que ele agiria de novo,
pois eram um só. Ele que tem tantos nomes e vive por tempo suficiente quanto a
humanidade existe, sempre tem as mais complexas artimanhas para confundir e
atrair para amarras feitas de correntes de pó e cordas de sombras.
Mas por mais terrível que o Diabo
seja, nem ele pode contra algumas flores.
Segurou com força o Livro
dos Espelhos, conseguia utilizá-lo para ver à frente, ainda que suas
páginas apenas refletissem o que havia dentro de si. Páginas e mais páginas em
branco, exalando o cheiro de livro novo – mas de que adiantava se todas as
histórias que ali estavam ou que seriam escritas remetiam ao passado? A cada
página virada uma possibilidade de se visitar algo antigo, ainda que pudesse
jurar que suas memórias não eram lá de tanta confiança. Livro dos Sonhos, seria um nome mais apropriado. Talvez Livro dos Pesadelos. Mas isso
significaria que até então só vivera de sonhos ruins? Claro que não! “Se não fossem minhas malas cheias de
memórias. Ou aquela história que já faz mais de um ano. Se não fossem os danos,
não seria eu”. Visitar contos antigos às vezes é mais do que necessário, há
uma certa urgência como uma planta que seca em um vaso pequeno, em um desespero
silencioso por água. Percebeu então que a farpa que lhe atravessa a sola do pé
e o faz mancar a cada vez que toca o chão significava não apenas uma farpa que
dói. Significava que era preciso saber por onde se anda.
“A gente precisa saber
onde ancorar” Ela disse em um de seus contos. Algo sobre seu pai e a
relação tempestuosa que originou algumas de suas dores mais profundas. Parece
que ao final do conto, ela encontrou o perdão que não procurava.
A ferramenta mais útil que dispunha para tentar encontrar o
lugar onde jogar sua âncora era um candeeiro entregue por um homem muito velho e
tão sábio quanto era antigo. A pequena e cintilante chama ilumina os caminhos
que o coração deseja encontrar. Balançando de um lado para o outro enquanto
caminha, ela mostra as bifurcações que existem por todos os lados – e as
estradas possuem as mais variadas cores e o segredo é encontrar o caminho que
tem a mesma cor que seu coração. Às vezes era difícil distinguir as cores que
estavam diante dos olhos, uma vez que a chama não era forte o suficiente para
evitar que as penumbras sugerissem a ilusão na dança das cores. O azul às vezes
parecia verde, o roxo às vezes era preto e assim se seguia. “Só se vê bem com o coração”, lhe
confidenciou certa vez o candeeiro.
Mas, antes dessas cores, antes dos caminhos, antes de
qualquer significância a se atribuir ao destino (“O destino é uma vadia”, ouviu certa vez de uma alma amiga, em
contraste mas sem controvérsia com a frase “O
que o destino coloca à mesa eu como”, que outra alma amiga lhe
confidenciou. Ria em concordar e formulava a sua própria frase “O destino é uma vadia que põe a mesa e nos
faz comer”) ele sabia que de alguma forma há uma ligação entre todos os
fatos, como um fino fio de prata que liga as pessoas e as situações – o que
traduzia uma certeza especulativa de que se há um fio de prata, então somos
todos ouro e nos manchamos ou reluzimos à medida que aceitamos aquilo que essa meretriz
(que não se vende) chamada destino nos oferece. Ou nos obriga a comer.
E este fio, tão meticulosamente fiado, enrolado e cortado,
não poderia deixar de ter suas próprias fiandeiras, seu próprio tear. Seres
lúgubres que se sentavam ao redor de uma grande roda e a giravam sem um
controle predeterminado, ainda que soubessem que não deixariam em momento algum
a roda sair de seu próprio eixo.
Talhado na roda, está escrito: Regnabo a leste, Regno ao
norte, Regnavi a oeste, Sum Sine Regno ao sul. Sabia que seu momento era o sul,
era aquele que estava sem reino - mergulhado nas sombras da noite a observar a
lua em uma de suas belas evoluções pelo céu. “Uma superlua”, refletiu.
As marcações na Roda representam a jornada do Sol, portanto uma lua de tal
magnitude em um momento tão mergulhado em sombras só poderia significar a obviedade
das situações indesejadas. Se haveria de ser dessa forma, então que fosse.
Afinal, o destino é uma vadia que põe a mesa e nos obriga a comer.
Mas o candeeiro balançou,
e no seu vai e vem ele pode ler as letras douradas do leste.
Regnabo.
A Roda continua a
girar, é por isso que tantos a chamam dessa forma. Pois mesmo que ela possa
trazer sorte ou azar, temos uma única certeza: nada é para sempre.
Havia uma urgência em seu âmago. Uma chama que crepitava
lentamente lhe consumindo as veias, artérias e o próprio sangue – uma queda
lenta em direção a uma fogueira alta, que sem ao menos se aproximar, sentia o
calor lhe esbofeteando o rosto (ou seria o coração?). Era falível, embora
sempre estivesse altivo, ereto e duro como uma estátua de mármore, seria
possível que as chamas que não podiam ser vistas e nem tocadas, conseguissem
por fim determinar a deterioração de suas bases? Iria a estátua finalmente cair
na direção da fogueira e por fim, dar-lhe um fim?
Respirou profundamente, uma
vã tentativa de suprimir a ardência que sentia, que aumentava à medida que
inspirava, com o ar alimentando o fogo. Seria ele inspiração para algo ou
alguém? Duvidava. As águas que corriam pelos pés e brincavam com seus dedos não
eram da chuva, não naquela noite, não naquele momento – nem era água também.
Arrumou sua postura, tentou fingir que não havia um peso incomensurável sobre
seus ombros, quando foi que permitiu tantas porcarias naquele espaço sagrado,
que de sagrado não tinha nada – não por que não era, mas sim por que não
recebia esse valor. Sentiu a fumaça lhe estufando os pulmões, aquela velha e
barata tentativa de se manter a calma quando sente-se que o mundo ao redor estava
ruindo. Que mundo? Se perguntava com um amargor nos lábios, provocado não pelo
líquido incolor e inodoro que ingeria para amenizar a incandescência dentro de
si (indiscutivelmente sem resultado).
Decidiu caminhar ainda que os ossos das
pernas refutassem a vontade de se andar sem rumo - a quem queria enganar?
Alguns passos pelos corredores, pois sair daquele lugar implicaria em abrir mão
da responsabilidade que possuía, mais um peso entre tantas outras porcarias.
Voltou para o lugar que estava, onde as ervas daninhas sobem pela cadeira e
amarram seus braços e pernas, sem contudo, qualquer tentativa de se livrar
delas. Sabia que vez ou outra abria-se uma flor perto de seu rosto, a qual ele
olhava com um certo respeito, tentando ver beleza na planta antes que ela
espirrasse algum tipo de tóxico em seus olhos ou em suas narinas.
Desistiu, o
que se pode fazer contra aquilo que não há força para enfrentar? Se não há
resolução, resolvido está. E foi então que sentiu a ardência passar, a água sob
seus pés secar, e a planta afrouxar. Até as várias flores nocivas perderam sua
força, morrendo instantaneamente, na velocidade de um suspiro. Relaxar a mente
e o espírito, ouviu-se dizendo enquanto procurava pela sombra da confiança que
tentava exalar para si mesmo.
Pandora abriu a caixa e dentre tantas as
tristezas que espalhara pelo mundo, a pior talvez, fosse a esperança.
Subiu a montanha sentindo os flocos de neve caindo levemente
no seu rosto. Era primavera, mas tão perto do pico da montanha, sempre havia
neve. Quase um lembrete não escrito a respeito da necessidade de se retirar e
refletir. Estava para se encontrar com um velho conhecido que de tempos em
tempos surge para lhe dar a mão, balançar sua lanterna de um lado para o outro
e em alguns momentos, lhe emprestar o cajado.
Para a árdua tarefa que era subir a montanha caminhando
pelas trilhas íngremes, jogou sobre si um manto que não permitia o frio lhe
cortar a pele; pegou um galho de árvore para que servisse de apoio enquanto
subia; botas de pelo de carneiro para ter certeza que os pés não ficassem
dormentes. Preparação é sempre a palavra chave quando se tratava em se
encontrar com o velho.
À medida que subia lamentou-se por ter de fazer isso justo
agora, quando preferia os jardins floridos e o sol quente do vale. “Deve ter algum motivo muito especial para
esse encontro”, pensou. Um passo em falso e quase caiu no desfiladeiro, mas
por sorte carregava um livro grande e pesado às costas, que lhe fez contrapeso
e assim desabou sentado na trilha. Usou o galho como apoio e se levantou. Ainda
caminharia mais um pouco e passos em falso fazem parte da situação quando se
pretende chegar em algum lugar.
Fez a última curva aliviado e encontrou a caverna do velho,
onde viu a luz de uma fogueira lambendo as paredes rochosas. Entrou e ali viu
seu velho amigo sentado segurando uma vara com algum tipo de fruto na ponta,
sob o fogo.
- Como tem passado? – Lhe perguntou o homem sem levantar os
olhos, mas sorrindo daquele jeito banguela que irradia uma felicidade
contagiante, e fez com que o rapaz não se lamentasse mais por estar no alto de
uma montanha gelada, enquanto as flores desabrocham no vale.
- Bem, apesar de alguns obstáculos. – Lhe respondeu enquanto
tirava o manto úmido das costas.
- Temperança, Sacerdotisa hein?
- Ah... bem, sim. E ainda ganhei um livro!
- Ganhou. Mas sempre foi seu. Mas é esse o sentimento quando
não sabemos que temos algo e de repente, plim, aparece.
Aproximou as mãos do fogo para se aquecer, enquanto o velho
tirava a vara com o fruto do fogo.
- Recebeu meu chamado a contragosto não é?
- Caminhamos tanto tempo lado a lado que ás vezes sinto
saudade, mas você sabe, o caminho do Eremita é entender que tudo é aprendizado.
- Você parece ter entendido muito bem.
- Venho me esforçando para isso.
O velho sorriu banguela. Era verdade que o rapaz sempre se
esforçava para entender as situações pelas quais ele próprio passava, mesmo que
inicialmente tudo fosse confuso, sabia muito bem que era questão de tempo e de
se distanciar da questão para conseguir vislumbrar o todo e assim galgar pouco
a pouco o crescimento.
- Não há muito o que eu possa fazer por você agora.
- O que quer dizer?
- Estamos nos despedindo.
- Você não pode me deixar... quero dizer... preciso me
encontrar com você de tempos em tempos, conversar e tentar entender as coisas.
O velho se levantou e foi para o fundo da caverna, onde acendeu
o que parecia ser um candeeiro e quando virou-se, o rapaz viu um homem alto, de
barba longa e branca, com um manto que parecia ser um céu estrelado que se
expandia por todo o fundo da caverna, na sua mão direita um cajado de carvalho
entalhado com imagens de azevinho.
Um vento gelado soprou pela entrada da caverna, fazendo a
fogueira quase se apagar e assim que ela se restabeleceu o rapaz viu o homem
banguela na sua frente novamente.
- Para você. – Lhe estendeu o candeeiro feito de prata. – A partir
de agora você pode encontrar seu próprio caminho sem que exista minha influência.
Quando precisar, feche os olhos e mantenha a mente calma, focada nas estrelas e
na luz que há em você. Estaremos juntos de qualquer forma, mas é tempo de saber
que você é também seu próprio Eremita.
Agradeceu sem saber o que falar.
- Agora parta.
O rapaz se levantou e foi para a saída da caverna, com a
certeza de que aquele momento não era um adeus, mas um até logo.
“Como parte do ritual
(que aqui significa cerimônia), lembro-lhe caro leitor, que esta não é uma
história feliz. Novamente nosso protagonista parte em busca de algo e novamente
encontra uma situação adversa à que desejava. Talvez entre todos os dissabores
com os quais ele venha se acostumando, esse seja um dos menores deles.”
- Se fosse um dos menores ele não se lembraria até hoje. –
Disse o andrógino.
- O tempo que demoramos para esquecer é o que define se algo
é grande ou não?
- De forma alguma. Mas a questão primordial nessa discussão
é: você acha que é algo pequeno ou você tem certeza?
Deu às costas para o homem e observou o título no alto da
página
Uma história sem
grande importância.
Refletiu sobre as palavras ditas pelo homem sentado na
grande cadeira de prata. Riscou o título e o reescreveu embaixo:
Uma história sem
grande importância.
“A importância que
damos para as coisas.
Era uma noite quente de
primavera e como havia trabalhado muito durante a semana, decidiu que seria por
bem que iria para uma festa ao sábado. ‘Por bem’ nesse caso, quer dizer que
possivelmente lhe faria algum bem e deixaria a cabeça mais leve ir para alguma
festa e beber um pouco. Em ambos os casos, sair para uma festa e beber um pouco,
se tratavam apenas de uma conjectura falsa, já que mais tarde iria descobrir
que nenhuma das duas coisas iriam de fato lhe fazer bem.
Encontrou com seu
amigo para comprarem uma garrafa de vinho e se sentarem em uma avenida próxima,
que aos sábados tinha grande movimentação de menores de idade bêbados, alguns
assaltantes, carros em velocidades altas e algumas barraquinhas de comida
duvidosa. Mas o local onde gostavam de ficar conversando era próximo a um rio e
ele gostava de ver as luzes da cidade refletidas naquelas águas escuras e
então, como qualquer jovem incauto, achava que nada poderia acontecer de ruim.
Ele estava certo sobre não acontecer ali.
Beberam, conversaram e
se divertiram. A noite havia se tornado fresca e ele estava se sentindo tão bem
que pensou que nada de ruim poderia acontecer, quem sabe até conheceria alguém
naquela noite. Ele não sabia contudo, que essa era a parte ruim.
Caminharam pela
avenida sob árvores que floresciam à medida que os dias da primavera se
estabeleciam, a lua cheia brilhava alta no céu. Entraram em uma rua sem saída e
procuraram algum lugar para se sentarem à espera do momento em que as portas da
festa se abririam, ficaram observando os carros chegando e outras pessoas que
estavam sem veículos motorizados. Viu um garoto chegando, não mais velho que
ele, com cabelos lisos na altura dos ombros e bem magro – parecia chamar atenção
das outras pessoas que viravam a cabeça para olhá-lo. Nosso protagonista parou
para tentar se lembrar se já o tinha visto em algum lugar e concluiu que não.
- Como é bonito. –
comentou seu amigo com um olhar estranho, como se pudesse atacar o rapaz.
- Ah... bem... parece
um pouco bonito mas não sei... tem algo...
Mais um de nossos
momentos sublimes nos quais a intuição se sobrepõe ao racional mas como todo
péssimo protagonista, ele decide não ouvir a voz em sua cabeça. Talvez também
houvesse uma ação do destino (que aqui significa acreditar que as coisas
acontecem e são por uma vontade superior à nossa).
De qualquer maneira,
sua frase foi interrompida pela abertura das portas e a aglutinação das pessoas
que desejavam entrar ali. Pegou a fila também e continuou a conversa animada
com seu amigo que possuía tiques escandalosos e por muitas vezes lhe fazia
sentir vergonha.
Entraram no ambiente
escuro, mas já muito bem conhecido. Viu alguns rostos conhecidos e caminhou
entre as pessoas para chegar no caixa e pegar algumas fichas de cerveja. Passou
pela pista de dança para que chegar ao bar e no caminho cumprimentou mais algumas
pessoas.
Encostou-se no balcão distraído, quando veio uma voz do lado esquerdo.
- Oi, está sozinho?
Olhou para o lado e se
espantou com o rapaz de cabelos lisos até o ombro, encostado no bar e
atrapalhando que outras pessoas pegassem sua bebida.
- Er... oi... estou
com um amigo.
- Ah, um amigo, me
desculpe.
- Como assim?
- Achei que estava
sozinho.
- Não estou com
alguém, sabe, no sentido de estar com alguém.
Ficou olhando com uma
cara confusa para nosso protagonista.
- Não estou ficando ou
namorando ninguém. – Completou julgando que era essa informação que o outro
queria.
- Legal...
E começaram a
conversar enquanto bebiam cerveja e atrapalhavam outras pessoas de buscarem
suas bebidas. Em algum momento com as luzes piscando e o lugar se tornando
abafado à medida que mais pessoas chegavam, beijaram-se.
***
Saíram mais algumas
vezes e por volta da terceira semana, conversando todos os dias e se
descobrindo, decidiram que poderiam iniciar um namoro que nesse caso não tinha
um significado especial para o nosso protagonista, que entendia essa relação
como sendo algo tranquilo que poderia balancear entre o trabalho, a faculdade e
o momento que teria para estar com ele e com os amigos.
Os dias se
desenrolaram com o rapaz exigindo cada vez mais presença e com histórias cada
vez mais estranhas, como quando ele estava andando sozinho pela rua à noite e
foi abordado por um homem que desejava conhece-lo melhor. Justificou a
abordagem do homem (não que precisasse pois não foi questionado de nada) como
sendo culpa de uma magia feita para ele, em que as pessoas sempre sentiam
atração sexual.
- Magia para sentir
atração sexual por você? Interessante, como foi feito?
- Não posso contar.
- Tá, mas você não me
traiu não né?
- Claro que não.
Embora acreditasse no
rapaz, sabia que naquele dia ele havia chegado cerca de uma hora mais tarde em
sua casa.
***
Saiu no horário
costumeiro para ir encontrar com o namorado. Aos sábados trabalhava até próximo
do meio-dia, então pegava dois ônibus e ficava sem almoço para estar com ele o
maior tempo possível. Aquela era a terceira semana que mesmo estando um pouco
zonzo pela fome, recebeu a reclamação de que havia demorado muito. O rapaz de cabelos
lisos até o ombro chegou a ameaçar de não se ficarem juntos naquele dia, no
momento em que nosso protagonista desceu no ponto de encontro.
As brigas se tornaram
cada vez mais comuns e os motivos cada vez mais estúpidos. Ele estava se
cansando por se sentir cobrado demais e não atender às expectativas.
Mas quando estavam
juntos se sentia preenchido e feliz. Sabia que o outro gostava dele e o quanto
gostava.
Mas, essa história não
tem um final feliz e você ainda pode ir para outra postagem, como talvez o Mago
que fala sobre inteligência e esperteza, ou o Imperador que fala sobre uma
mulher e uma fotografia.
Mas o caso é que
tiveram uma conversa muito séria em uma sexta-feira quente de verão. O nosso
herói ficou com o coração na mão quando lhe disse que o término era a única
opção. O rapaz de cabelos lisos até o ombro lhe disse que não acreditava nisso
e que o nosso protagonista precisava melhor, precisava se tornar outra pessoa.
Nosso herói negou.
Saiu daquele local com
o rapaz ao seu encalço, aguardou o ônibus enquanto o outro chorava e pedia para
que ele não fosse.
***
- Não consigo continuar. Me sinto como se tivesse causado
tanta dor para ele.
- Continue.
- Não posso, eu fui tão... péssimo com ele.
- Existem coisas que você precisa entender. – Disse-lhe a Sacerdotisa
com um olhar meigo.
***
Terminaram, e então o
revés atingiu nosso protagonista em cheio, que ficou se sentindo mal pelo resto
da semana e não conseguia se imaginar com nenhuma outra pessoa. Não sabia
exatamente o que sentia por ele mas parecia que a forma certa de se gostar de
alguém era a forma como o rapaz de cabelos lisos até os ombros havia feito.
Preocupado com nosso
herói, o seu amigo o chamou para ir novamente para a boate onde tudo havia
começado. Poderiam beber e se divertir.
Repetiram os mesmos passos
relatados no começo do conto e foram para lá.
Como em toda
Desventura na qual aquilo que tem para dar errado provavelmente dará, o rapaz
de cabelos lisos até o ombro também estava ali e quando se encontraram lágrimas
rolaram e nosso protagonista se sentiu a pior pessoa do mundo, não acreditava
que estava fazendo isso com o rapaz.
Não acreditava.
Assim como não
acreditou quando, depois de uma semana, o rapaz de cabelos lisos até o ombro
estava passeando pelo centro da cidade de mãos dadas com outro rapaz (este não
possuía nem os cabelos lisos, nem até o ombro). Se cumprimentaram e foram
apresentados. O rapaz que não possuía os cabelos lisos e nem até o ombro foi
até a banca de jornal pois estava com pressa e o rapaz de cabelos lisos até o
ombro disse para o nosso herói:
- Finalmente achei
alguém que amo de verdade.
***
Pousou a caneta ao lado do livro.
- Interessante não é mesmo?
- Não sei o que dizer.
- Era real?
- Por que não seria?
- Por que seria?
- Por que as coisas possuem o peso que damos para elas.
Ficou olhando para o livro de páginas em branco. Estava
cansado e decidiu por fechá-lo e quando olhou para a capa, percebeu que o nome
estava diferente.
Desventuras em
Série
Livro do Espelho
- O nome... – Olhou para o andrógino.
- Está um pouco diferente.
- Espero que tenha sido proveitosa sua estada.
- Sentirei sua falta.
- Basta escrever e estarei com você.
Levantou-se e deu um abraço forte no homem. Virou-se e
caminhou em direção à saída do templo.
The young man stepped into the hall of mirrors Where he discovered a reflection of himself
Even the greatest stars Discover themselves in the lookingglass Even the greatest stars Discover themselves in the lookingglass
Sometimes he saw his real face And sometimes a stranger at his place
Even the greatest stars Find their face in the looking glass Even the greatest stars Find their face in the looking glass
He fell in love with the image of himself And suddenly the picture was distorted