quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Apócrifo I - 3 de Espadas

Havia uma urgência em seu âmago. Uma chama que crepitava lentamente lhe consumindo as veias, artérias e o próprio sangue – uma queda lenta em direção a uma fogueira alta, que sem ao menos se aproximar, sentia o calor lhe esbofeteando o rosto (ou seria o coração?). Era falível, embora sempre estivesse altivo, ereto e duro como uma estátua de mármore, seria possível que as chamas que não podiam ser vistas e nem tocadas, conseguissem por fim determinar a deterioração de suas bases? Iria a estátua finalmente cair na direção da fogueira e por fim, dar-lhe um fim? 

Respirou profundamente, uma vã tentativa de suprimir a ardência que sentia, que aumentava à medida que inspirava, com o ar alimentando o fogo. Seria ele inspiração para algo ou alguém? Duvidava. As águas que corriam pelos pés e brincavam com seus dedos não eram da chuva, não naquela noite, não naquele momento – nem era água também. 

Arrumou sua postura, tentou fingir que não havia um peso incomensurável sobre seus ombros, quando foi que permitiu tantas porcarias naquele espaço sagrado, que de sagrado não tinha nada – não por que não era, mas sim por que não recebia esse valor. Sentiu a fumaça lhe estufando os pulmões, aquela velha e barata tentativa de se manter a calma quando sente-se que o mundo ao redor estava ruindo. Que mundo? Se perguntava com um amargor nos lábios, provocado não pelo líquido incolor e inodoro que ingeria para amenizar a incandescência dentro de si (indiscutivelmente sem resultado). 

Decidiu caminhar ainda que os ossos das pernas refutassem a vontade de se andar sem rumo - a quem queria enganar? Alguns passos pelos corredores, pois sair daquele lugar implicaria em abrir mão da responsabilidade que possuía, mais um peso entre tantas outras porcarias. Voltou para o lugar que estava, onde as ervas daninhas sobem pela cadeira e amarram seus braços e pernas, sem contudo, qualquer tentativa de se livrar delas. Sabia que vez ou outra abria-se uma flor perto de seu rosto, a qual ele olhava com um certo respeito, tentando ver beleza na planta antes que ela espirrasse algum tipo de tóxico em seus olhos ou em suas narinas. 

Desistiu, o que se pode fazer contra aquilo que não há força para enfrentar? Se não há resolução, resolvido está. E foi então que sentiu a ardência passar, a água sob seus pés secar, e a planta afrouxar. Até as várias flores nocivas perderam sua força, morrendo instantaneamente, na velocidade de um suspiro. Relaxar a mente e o espírito, ouviu-se dizendo enquanto procurava pela sombra da confiança que tentava exalar para si mesmo. 

Pandora abriu a caixa e dentre tantas as tristezas que espalhara pelo mundo, a pior talvez, fosse a esperança.

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