Havia uma urgência em seu âmago. Uma chama que crepitava
lentamente lhe consumindo as veias, artérias e o próprio sangue – uma queda
lenta em direção a uma fogueira alta, que sem ao menos se aproximar, sentia o
calor lhe esbofeteando o rosto (ou seria o coração?). Era falível, embora
sempre estivesse altivo, ereto e duro como uma estátua de mármore, seria
possível que as chamas que não podiam ser vistas e nem tocadas, conseguissem
por fim determinar a deterioração de suas bases? Iria a estátua finalmente cair
na direção da fogueira e por fim, dar-lhe um fim?
Respirou profundamente, uma
vã tentativa de suprimir a ardência que sentia, que aumentava à medida que
inspirava, com o ar alimentando o fogo. Seria ele inspiração para algo ou
alguém? Duvidava. As águas que corriam pelos pés e brincavam com seus dedos não
eram da chuva, não naquela noite, não naquele momento – nem era água também.
Arrumou sua postura, tentou fingir que não havia um peso incomensurável sobre
seus ombros, quando foi que permitiu tantas porcarias naquele espaço sagrado,
que de sagrado não tinha nada – não por que não era, mas sim por que não
recebia esse valor. Sentiu a fumaça lhe estufando os pulmões, aquela velha e
barata tentativa de se manter a calma quando sente-se que o mundo ao redor estava
ruindo. Que mundo? Se perguntava com um amargor nos lábios, provocado não pelo
líquido incolor e inodoro que ingeria para amenizar a incandescência dentro de
si (indiscutivelmente sem resultado).
Decidiu caminhar ainda que os ossos das
pernas refutassem a vontade de se andar sem rumo - a quem queria enganar?
Alguns passos pelos corredores, pois sair daquele lugar implicaria em abrir mão
da responsabilidade que possuía, mais um peso entre tantas outras porcarias.
Voltou para o lugar que estava, onde as ervas daninhas sobem pela cadeira e
amarram seus braços e pernas, sem contudo, qualquer tentativa de se livrar
delas. Sabia que vez ou outra abria-se uma flor perto de seu rosto, a qual ele
olhava com um certo respeito, tentando ver beleza na planta antes que ela
espirrasse algum tipo de tóxico em seus olhos ou em suas narinas.
Desistiu, o
que se pode fazer contra aquilo que não há força para enfrentar? Se não há
resolução, resolvido está. E foi então que sentiu a ardência passar, a água sob
seus pés secar, e a planta afrouxar. Até as várias flores nocivas perderam sua
força, morrendo instantaneamente, na velocidade de um suspiro. Relaxar a mente
e o espírito, ouviu-se dizendo enquanto procurava pela sombra da confiança que
tentava exalar para si mesmo.
Pandora abriu a caixa e dentre tantas as
tristezas que espalhara pelo mundo, a pior talvez, fosse a esperança.
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